A chuva castiga a cidade. Lá fora, a água parece brotar das bocas-de-lobo, que já não suportam a vazão do aguaceiro. O som da chuva caindo nem de longe lembra o mesmo som da chuva que cai no interior, nas casas de telhado. Aqui dentro, entre leituras, computador, televisão, cada um cuidando de seus interesses pessoais.
Lembro que quando criança (pois pequena eu sempre fui) gostava de ver a chuva caindo, escorrendo pelos beirais do telhado, na casa do Buri. Vez ou outra, conseguia dar uma fugidinha e tomar aquele banho nas grossas goteiras que desaguavam na terra fofa, formando, ao tocar o chão, pequenas coroas. Me sentia a rainha da chuva... Talvez por isso eu goste tanto de ver a chuva caindo.
Admiro a beleza das tempestades, embora estas tragam trágicas conseqüências para uma grande parte da população.
Hoje, depois de observar a chuva, com um ar melancólico, que nem combina muito comigo, resolvi tomar um vinho quente, bebida típica do inverno sulista. Baiano é assim, na primeira chuva, faz a festa! Adoro o inverno por causa da elegância que as pessoas costumam se vestir para ir ao trabalho, ao shopping, ou até para encontros casuais.
A chuva continua a cair, agora mais mansa. Fecho os olhos e sinto, vindo das minhas lembranças, o cheiro da terra molhada. O sabor das memórias agora não mais da infância, mas da adolescência inconseqüente, tempo em que andava por aí, de moto, sentindo os pingos da chuva atingirem como agulhas a minha pele, dos beijos molhados, do amor sem barreiras climáticas.
Retorno ao presente, para o aconchego do meu lar, cada um ainda cuidando de seus interesses e o cachorro, aproveitando o friozinho que chega por uma fresta da janela entreaberta para tirar um cochilo perto de mim, no braço do sofá.
A tartaruga? Perdida por aí. Quem sabe depois da chuva ela aparece?
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