segunda-feira, 19 de julho de 2010

FÊNIX


Para quem não sabe o que é uma fênix, diz a mitologia grega que é uma ave rara, de penas cor de brasa ardente, que tem a capacidade carregar grandes fardos e de renascer das próprias cinzas.
Nunca falei muito sobre ela, mas o seu papel na minha vida tem uma dimensão imensurável. Apesar de sua pequena estatura, sentia-se se agigantar e se fortalecer a cada problema que procurava resolver, carregando grandes fardos.Essa é a minha avó Luzia. Uma verdadeira fênix.
 Hoje olho suas rugas, sua pele fina como um tecido translúcido, marcadas pela passagem do tempo, que não foi generoso com ela e em seus olhos já leitosos, ainda vejo o mesmo amor que me dedicou todos esses anos. Foi minha companheira quando mais precisei de uma palavra amiga, de um abraço de acolhida. Como gostávamos de andar juntas! Quantos caminhos caminhamos...Quando comprei minha primeira bicicleta, uma Brisa rosinha, punha sempre uma almofada na garupa e a acomodava para visitar suas comadres. Tinha o maior orgulho de desfilar pelas ruas da cidade levando Mãe, pois é assim que a chamo, copiada por todos os outros netos que me sucederam, pois carrego com muita reverência a honra de ser sua primeira neta.
Como disse, o tempo não foi generoso com ela. Viu o pai morrer jovem e sua mãe e irmão mais velho lutarem para criá-la e aos irmãos mais novos. Casou-se e teve doze filhos, dos quais duas morreram ainda bebês e, para sua tristeza maior, perdeu mais duas já adultas.  Viveu as secas, a fome, a pobreza e todas as mazelas que rondavam o sertão na passagem dos anos de 1920 a 1930. Menina, tinha que trabalhar na roça para ajudar no sustento da família. Só foi à escola já moça, onde conheceu meu avô. Foram felizes. A seu modo, se amavam. Quando meu avô faleceu, viu-se sozinha, como sua mãe estivera antes, a diferença é que já tinha criado seus filhos e já tinha alguns netos. Ainda faltava formar meu tio José, que estudava em Catu, um luxo para algumas famílias e meu tio Gil (Gilberto) que estudava em Cipó.
Imbuiu-se de uma força extraordinária para o seu corpo pequeno. Embora lhe coubesse a pensão deixada por meu avô e sua própria aposentadoria, ainda plantava quiabos, que fornecia para os feirantes da cidade.
Sua casa, sempre foi cheia de vida, de pessoas. Dificilmente alguém ia ao Buri sem passar por lá e tomar ao menos um cafezinho. O bule de esmalte verde estava sempre cheio, à beira do fogão de lenha e o cheiro do café fresquinho, feito pelo menos umas quatro vezes ao dia, enchia o ar daquela casa. Amava as flores e, enquanto pode, seu jardim era rodeado de hibiscos (que chamamos de boca-de-lobo) e sempre varrido diariamente com um feixe de vassourinhas.
Talvez eu não tenha falado sobre Mãe porque sempre a amei muito e isso as vezes causa um certo ciúme. Talvez eu não quisesse compartilhá-la com mais ninguém, a quisesse só para mim.
Com a perda das filhas, o estado de saúde de tia Tê, que teve um AVC aos trinta e dois anos, sua saúde foi se fragilizando a ponto de deixar, mesmo a contra-gosto, a sua casa e ir morar com uma das filhas, minha tia Di. A escolheu para ficar mais próxima de sua comadre Joana, pois assim teria companhia. Mais uma vez a vida não lhe foi generosa e tia Joana, como a chamávamos, veio a falecer.
A cada obstáculo superado, renasceu fortalecida, mas alguns AVCs seguidos a debilitaram cada vez mais. Uma mente lúcida, aprisionada num corpo que não responde. E agora, cada vez mais frágil, percebo meu egoísmo, pois queria que ela vivesse para sempre, eterna, majestosa, como sempre a vi.
Ontem, antes de partir de Cipó, dei-lhe um beijo emocionado e ela, fazendo um esforço sobre-humano, me abraçou. Me senti destroçada. Espero que ainda não tenha sido nosso último abraço. Ainda estou desorganizada emocionalmente. Preciso acalmar meu coração e meus pensamentos. Preciso compreender que é chegada a hora de sua transformação. É preciso que se vá, para renascer, como uma fênix...
Coisa pequenina, luz da minha vida... Luz, Luzia... Tudo que eu queria...

quinta-feira, 8 de julho de 2010

O MISTERIOSO CASO DAS LIXEIRAS DA PRAÇA


“O trabalho enobrece o homem”, mas não tem nada melhor que tirar uns dias de férias para curtir o que Sócrates chamava de “ócio produtivo”. É nesses dias de ócio que descobrimos o prazer das pequenas coisas e filosofamos sobre coisas que normalmente não temos tempo para pensar. A princípio, os leitores podem não achar que esse não é um assunto sério, mas é nos pequenos acontecimentos que percebemos os grandes fatos. Quando vemos a imagem de um iceberg, o que está à tona é apenas dez por cento do que as águas escondem.
Uma coisa que anda me intrigando é o misterioso sumiço das lixeiras do parque infantil da Praça Juracy Magalhães. Quando foi inaugurado, o parque contava com dois conjuntos de lixeiras, cada um com três contêineres; uma quantidade um pouco excessiva, uma vez que o restante da praça carece de lixeiras. No entanto, um dos conjuntos está devidamente instalado, com seus pedestais fincados, suas tampas no lugar, mas as lixeiras simplesmente desapareceram.
Pus-me a perguntar que tipo de pessoa subtrairia uma lixeira da praça, e três, convenhamos, é um exagero! Pensei na ação de vândalos, que infelizmente depredam nosso patrimônio público. Talvez elas tivessem sido levadas para a manutenção... ou um disco voador as tivesse achado bonitas e as levado para Marte. Por falar em patrimônio público, descobri que a estátua que decorava a entrada do Radium Hotel, aquela de uma moça segurando uma tocha, ao lado de uma roda, foi dada de presente a um cidadão de Itabuna. Será que ele também foi presenteado com as lixeiras do parque? Por que alguns se apropriam de bens públicos como se fossem particulares?
Só para esclarecer, O Patrimonialismo é a característica de uma administração que não possui distinções entre os limites do público e os limites do privado e o Vandalismo é uma ação motivada pela hostilidade contra a arte, a cultura, ou destruição intencional de bens e propriedades alheios, sejam estes públicos ou privados.
Por falar em lixeiras, gostaria de parabenizar os responsáveis pelo estabelecimento de horários para a coleta de lixo, sob pena de multa para aqueles que não cumprirem-lo. Precisamos nos educar e cuidar melhor da nossa cidade. Contudo, o poder público precisa estudar melhor o impacto ambiental causado pelo lixo de nossa cidade e, se possível, aliar-se às prefeituras vizinhas para a construção de um aterro sanitário adequado à legislação ambiental. Ainda precisamos melhorar muito também no atendimento ao turista, nos serviços de atendimento de bares e restaurantes e na variedade de produtos oferecidos. Precisamos retomar nossa tradição de cidade turística e explorar melhor os recursos que a Natureza tão generosamente nos presenteou: nossas águas termais. Espero que a equipe do governo cipoense invista com sapiência os recursos conquistados junto ao Governo Federal para que tenhamos uma cidade cada vez mais digna e acolhedora.
Voltando a elas, prefiro não acreditar que o sumiço das lixeiras se deu por intervenção de algum funcionário patrimonialista e sim pela ação de vândalos ou de pessoas mal intencionadas.
O que ou quem estará por trás disso? Será que o sumiço das lixeiras é apenas a ponta do iceberg?
Enquanto isso, o mistério das lixeiras da praça continua...

terça-feira, 6 de julho de 2010

FOLIA JUNINA





Apesar da correria da capital, não saberia viver em outro lugar. Não por enquanto. Passei quase quinze dias em Cipó e ainda bem que tive bastante “eventos” pra participar, pois, no inverno, as pessoas dormem muito cedo e não há muito movimento na praça, o point de toda cidadezinha.
Pra começar, inventei uma fogueira na noite de São João e um monte de comidas típicas, sem falar do licor de jenipapo e de cambuí, sabores marcantes do São João cipoense. Foi uma noite de São João parecida com aquelas de não tão antigamente (considerando a minha idade). Visitamos os vizinhos, fomos visitados, soltamos fogos, conversamos e tomamos licor.
Dessa vez não deu pra tomar banho de rio, apesar das águas estarem convidativas, mas tomei banho de chuva. Como é bom sentir os pingos caindo na pele, nos cabelos, sentir o cheiro da terra molhada!
Nos dias que se seguiram aconteceram os festejos oficiais, com bandas, barracas de bebidas e muita, muita gente. Adoro gente. Gosto de observar os tipos humanos e, na festa tinha cada figura! Gente que tinha bebido além da conta, gente bonita conversando, rindo, gente que só vai à cidade quando tem festa, gente que eu não via há muito tempo. Como foi bom!
Não houve violência, as pessoas se divertiram em paz e no domingo, dia 27, o show de Aviões do Forró trouxe para a cidade um contingente de pessoas que eu só vi nos grandes shows do Parque de Exposições daqui de Salvador.
Por falar em festa, fui convidada para dois casamentos e duas visitas, com direito a pirão de parida. Como o tempo foi um pouco curto, pois minha mãe havia feito uma cirurgia e eu tinha que cozinhar todos os dias (UFA!!!), fui no “pirão de parida” da mulher de  Odair, que teve um filhinho fofo. Foram convidadas umas sessenta pessoas e meu pai, que cozinha muito bem, foi intimado, junto com Beto, meu tio-primo, pra fazer o pirão que foi elogiado por todos os comensais.
Também fui tomar um café da manhã no Buri, com tio Zé, meu tio-avô, para não perder o hábito. Fui de moto-taxi e, no meio do caminho não tinha uma pedra, como diz Drummond, tinha um pé de fruta-de-cágado carregadinho. Não hesitei: pedi ao motoqueiro pra parar e me fartei de frutinhas. Para quem não conhece, a fruta-de-cágado é parente da pitanga, só que é maior e menos ácida. Também é bem vermelhinha e deliciosa. 
Na volta encontrei meu amigo Paulo, o Poeta Termal. Como sempre, é muito bom vê-lo. Pena que não deu para tomarmos um whisky. Vai ficar para a próxima.
Aproveitei as minhas tardes indo à praça para Ana Clara brincar por lá e descobri uma coisa interessante: três  lixeiras do parque infantil foram abduzidas!!! Mas essa é uma história para o blog da rádio!
Por fim, já estava com saudades das buzinas, do cinema, do shopping, do meu cachorro, e, principalmente do meu maridão, por isso, minha estadia em Cipó tem prazo de validade: quinze dias e está de bom tamanho. Amo minha terra, mas como diz minha amiga Glória, sou muito espaçosa...Não caibo num lugar só!   Um beijão!