Para quem não sabe o que é uma fênix, diz a mitologia grega que é uma ave rara, de penas cor de brasa ardente, que tem a capacidade carregar grandes fardos e de renascer das próprias cinzas.
Nunca falei muito sobre ela, mas o seu papel na minha vida tem uma dimensão imensurável. Apesar de sua pequena estatura, sentia-se se agigantar e se fortalecer a cada problema que procurava resolver, carregando grandes fardos.Essa é a minha avó Luzia. Uma verdadeira fênix.
Hoje olho suas rugas, sua pele fina como um tecido translúcido, marcadas pela passagem do tempo, que não foi generoso com ela e em seus olhos já leitosos, ainda vejo o mesmo amor que me dedicou todos esses anos. Foi minha companheira quando mais precisei de uma palavra amiga, de um abraço de acolhida. Como gostávamos de andar juntas! Quantos caminhos caminhamos...Quando comprei minha primeira bicicleta, uma Brisa rosinha, punha sempre uma almofada na garupa e a acomodava para visitar suas comadres. Tinha o maior orgulho de desfilar pelas ruas da cidade levando Mãe, pois é assim que a chamo, copiada por todos os outros netos que me sucederam, pois carrego com muita reverência a honra de ser sua primeira neta.
Como disse, o tempo não foi generoso com ela. Viu o pai morrer jovem e sua mãe e irmão mais velho lutarem para criá-la e aos irmãos mais novos. Casou-se e teve doze filhos, dos quais duas morreram ainda bebês e, para sua tristeza maior, perdeu mais duas já adultas. Viveu as secas, a fome, a pobreza e todas as mazelas que rondavam o sertão na passagem dos anos de 1920 a 1930. Menina, tinha que trabalhar na roça para ajudar no sustento da família. Só foi à escola já moça, onde conheceu meu avô. Foram felizes. A seu modo, se amavam. Quando meu avô faleceu, viu-se sozinha, como sua mãe estivera antes, a diferença é que já tinha criado seus filhos e já tinha alguns netos. Ainda faltava formar meu tio José, que estudava em Catu, um luxo para algumas famílias e meu tio Gil (Gilberto) que estudava em Cipó.
Imbuiu-se de uma força extraordinária para o seu corpo pequeno. Embora lhe coubesse a pensão deixada por meu avô e sua própria aposentadoria, ainda plantava quiabos, que fornecia para os feirantes da cidade.
Sua casa, sempre foi cheia de vida, de pessoas. Dificilmente alguém ia ao Buri sem passar por lá e tomar ao menos um cafezinho. O bule de esmalte verde estava sempre cheio, à beira do fogão de lenha e o cheiro do café fresquinho, feito pelo menos umas quatro vezes ao dia, enchia o ar daquela casa. Amava as flores e, enquanto pode, seu jardim era rodeado de hibiscos (que chamamos de boca-de-lobo) e sempre varrido diariamente com um feixe de vassourinhas.
Talvez eu não tenha falado sobre Mãe porque sempre a amei muito e isso as vezes causa um certo ciúme. Talvez eu não quisesse compartilhá-la com mais ninguém, a quisesse só para mim.
Com a perda das filhas, o estado de saúde de tia Tê, que teve um AVC aos trinta e dois anos, sua saúde foi se fragilizando a ponto de deixar, mesmo a contra-gosto, a sua casa e ir morar com uma das filhas, minha tia Di. A escolheu para ficar mais próxima de sua comadre Joana, pois assim teria companhia. Mais uma vez a vida não lhe foi generosa e tia Joana, como a chamávamos, veio a falecer.
A cada obstáculo superado, renasceu fortalecida, mas alguns AVCs seguidos a debilitaram cada vez mais. Uma mente lúcida, aprisionada num corpo que não responde. E agora, cada vez mais frágil, percebo meu egoísmo, pois queria que ela vivesse para sempre, eterna, majestosa, como sempre a vi.
Ontem, antes de partir de Cipó, dei-lhe um beijo emocionado e ela, fazendo um esforço sobre-humano, me abraçou. Me senti destroçada. Espero que ainda não tenha sido nosso último abraço. Ainda estou desorganizada emocionalmente. Preciso acalmar meu coração e meus pensamentos. Preciso compreender que é chegada a hora de sua transformação. É preciso que se vá, para renascer, como uma fênix...
Coisa pequenina, luz da minha vida... Luz, Luzia... Tudo que eu queria...
