quinta-feira, 24 de março de 2011

BODAS

Estava arrumando a sala quando se lembrou que já era a hora. Eram quase oito, mas havia se distraído também na conversa com a sua mãe. Correu para o guarda-roupa para procurar as meias. Desarrumou as gavetas, jogou para cima uma infinidade de coisas, mas as meias não apareciam.
No fundo da gaveta, encontrou um saco de bexigas de soprar. Algumas vermelhas, algumas rosa-choque. Calçou-as e olhou para os pés. Até que lhe caíam bem, mas na pressa, havia calçado uma de cada cor. Corrigiu optando pelas bexigas rosa-choque, que moldando-lhe os pés, pareciam mais femininas.
E o sapato? Nada de encontrar algum que combinasse com a ocasião. Esquecera de comprar. Também, com uma vida corrida daquelas, era bem capaz que esquecesse a própria cabeça, se esta não lhe fosse colada ao pescoço. Por fim, não encontrando nada apropriado, calçou um tamanco de salto anabela, rodeado de cortiça. Horroroso, achou, mas foi o que lhe veio à mente.  Para não lhe criticarem enquanto se dirigia à igreja, pôs por cima das meias de bexiga, um par de meias brancas que a filha usava para ir à escola.
A igreja, que parecia mais o Centro de Abastecimento da cidade, era um galpão aberto, de um horrível azul e com azulejos em azul e branco, assemelhando-se à antiga Cesta do Povo das Sete Portas. Até a grade era azul. Não tinha paredes e, no amplo vão, distribuíam-se toscos bancos de madeira com um tapete vermelho ao centro, desbotado e puído.
Na frente, abarrotavam-se camelôs de CDs e DVDs pirata, cada um gritando mais alto e com o som infernalmente ligado disputando os clientes transeuntes.
Finalmente chegara. Já atrasada, desceu correndo do táxi. As daminhas já adentravam o vão e a florista, que era sua filha, espalhava as flores no velho tapete. O noivo, ansioso, pois não gostava daquelas frescuras todas, suava em bicas.
Quando olhou para o tapete, nervosa descobriu que a filha não jogara as pétalas, mas buquês inteiros. Onde estavam com a cabeça que não despetalaram aquelas flores?  Ralhou com a menina, a chamou de volta e obrigou a coitadinha, naquele vestido pesado, a entrar novamente, desta vez, espalhando as pétalas de orquídeas roxas, das quais tanto gostava.
Os pés lhe doíam, mas como o vestido era longo, eles não iam aparecer, resolveu entrar assim mesmo, só com as meias brancas e, por baixo delas, as meias de bexiga rosa-choque.
O pai, orgulhoso, a levava ao altar para entregá-la ao marido com quem vivia há mais de dezessete anos. Não entendia o porquê daquela cerimônia, já que ela nunca manifestou o desejo de se casar na igreja, muito menos, vestida daquele jeito.
À entrada da noiva, a igreja, aberta como o sorriso banguela dos matutos, se enche de música: “Venha comprar no Mercadão, aqui o Senhor aumenta suas bênçãos”. Amarelou. Como podia aquele padre, ao invés de tocar a marcha nupcial, tocar uma propaganda, só porque o dono Mercadão era colaborador dizimista da igreja?
Mandou parar tudo. No altar, o noivo suava mais ainda. Lembrou-se desesperada que não tinha dado a mídia com as músicas da cerimônia ao coroinha. Correu para os camelôs na porta da igreja. Encontrou um DVD de Fábio Júnior, mas não tinha nenhuma música apropriada. No concorrente, achou apenas música sertaneja, que ela odiava. Mas, escondidinho, tinha um CD de Vanessa da Mata. Gostava da música “Amado”, mas vestida de noiva, não estava com a carteira. Implorou ao vendedor que vendesse fiado, que ela iria se casar, estava na igreja e blá, blá, blá, mas o moço estava irredutível. Não iria vender um CD fiado a uma maluca vestida de noiva, sem sapatos, de meia branca colegial e que vira por baixo, umas meias rosa-choque que lembravam o látex de bexigas de aniversário!
Os convidados se mostravam impacientes. A música infernal do Mercadão ainda tocava. Despencou-se para o marido para pedir-lhe o dinheiro para comprar o CD, mas ele insistia que não precisava, que o importante era a cerimônia, que a música era só um simples detalhe. A cada palavra, ela se enfurecia mais. Por que ela resolvera se casar com ele? Já não estavam bem juntos? Os filhos já não estavam crescidos?  Os convidados cochichavam e alguns já ameaçavam levantar e ir embora, e o marido não abria a carteira. Perdendo a paciência ela começou a gritar:
_ Não quero! Não quero me casar com essa música horrorosa! Não quero! 
A música do Mercadão continuava a tocar e ela gritava mais ainda:
_ Não quero! Não quero!
Sentiu uma mão lhe sacudindo, quando o último grito lhe escapou pela garganta. Olhou para o lado e o marido, assustado, indagou:
_ Você estava tendo um pesadelo?

quinta-feira, 17 de março de 2011

Ser mulher

Sou Mulher


           Não desejo mais o que desejava há alguns anos atrás.
          Quero ser reconhecida pelo meu valor, por dividir contigo as responsabilidades do que chamamos de lar.
          Não desejo ser Amélia, desejo fazer contigo e compartilhar as realizações da “mulher de verdade.”
          Desejo o batom mais provocante, a roupa mais ousada, o sexo pelo prazer, mas não desejo ser você.
          Não desejo competição, desejo caminhar lado a lado contigo.
          Não desejo o seu lugar, desejo a igualdade de oportunidades, o respeito, o meu lugar no mundo.
          Não desejo destruir seu mundo, mas construir o mundo com você.
          Por tudo que me dizes, por tudo que me fazes me fazes, desde tempos imemoriais, me desconstruo, mas recobro minhas forças e me reconstruo e cada dia, afinal, sou mulher...
                          Niclécia Gama

                 Foi com esse texto que encerrei a palestra proferida na Câmara de Vereadores de Caldas de Cipó, no dia 15/03/2011 em seção solene em homenagem ao Dia Internacional da Mulher. Estavam presentes várias mulheres que contribuem para o fortalecimento da imagem feminina na sociedade cipoense, além de heroínas anônimas que a cada dia lutam pela manutenção de seus lares e suas famílias nos aspectos econômicos e sociais, além de psicológicos.
               Contamos também com a palestra de Dra. Rute Brasil, que falou das mulheres importantes desde o início do cristianismo até os dias atuais e o nosso papel para a educação da sociedade.
                 A iniciativa foi da atual presidente da Câmara, a vereadora Renata Brito, que se mostrou uma cicerone nata, dada a organização do evento. Foram laureadas com as medalhas "Mulher Brilhante", empresárias como Perpétua Macedo, Odete Souza, sindicalistas, e outras representantes da sociedade cipoense,como Noélia Souza e outras mulheres brilhantes, que nos leva a perceber o empoderamento feminino diante a sociedade dominada pelo sexo masculino.
                 A luta das mulheres pelo direito ao voto, pelo direito à educação formal, por seus direitos à dignidade, à não-violência e a equidade nas relações de trabalho é histórica e somente agora, no século XXI, alguns direitos se consolidam. Ainda temos muitos caminhos a percorrer. Queremos o direito de sermos atendidas com dignidade em áreas como saúde, educação, acesso a serviços sociais e respeito. Sim, a nossa luta por respeito à nossa condição ímpar, já que somos ao mesmo tempo, trabalhadoras, mães, esposas, dentre outras atribuições, nunca poderá deixar de existir. 
                 Muitas de nós ainda são estupradas por seus maridos e companheiros porque acreditam que tem direito ao sexo e ao prazer na hora em que bem entendem. Queremos o direito ao nosso corpo, sem precisar mentir que estamos menstruadas ou com dor de cabeça. Queremos o direito de dizer o que pensamos, sem medo de represálias. Queremos ter o direito de ser atendidas com dignidade  pelos órgãos públicos, em casos como o aborto, a violência,o câncer, a aids e outras causas que nos matam.
                Não queremos ser homens, não queremos ser melhores que eles. Queremos ser iguais em direitos, como reza a Constituição Federal. Iguais, mas diferentes dentro de nosssas especificidades.

Para Pensar:



Nesses dados não está inclusa a violência nossa de cada dia, mas ainda somos  vítimas de abusos sexuais e outros atos violentos, como o preconceito, a discriminação e o racismo.
Abaixo estão os principais tipos de violência que  sofremos a cada dia:

Violência de gênero (principalmente nas relações de trabalho)
Violência intrafamiliar
 Violência doméstica
Violência física
Violência sexual
Violência psicológica 
Violência econômica ou financeira
Violência institucional(mau atendimento em órgãos públicos)
Graças a Lei Maria da Penha, o número de denúncias de agressões aumentou em 112%. Apesar de algumas polêmicas geradas por esta lei, que passará por uma revisão jurídica, nos dá a segurança de que os agressores serão punidos. Defendo o inquérito justo, com coleta de provas, audiências em que se ouça ambas as partes, exames de corpo de delito e defendo o nosso direito de sermos assistidas com dignidade perante a lei.
Uma reflexão:
 

"Eu tenho escutado freqüentemente comentários sarcásticos quanto às mulheres que trabalham em fábricas do tipo - oh, ela é apenas uma operária; o que dá ao mundo a impressão que nós não temos o direito de sonhar com uma outra realidade a não ser a nossa. Eu lamento que ainda não estejamos atentas aos fatos e que percebamos que contribuímos muito para aumentar a riqueza da nação e, que em função disso, temos direito a respeito e não insultos. Pois em muitas casas de Lancashire há heroínas cujos nomes nunca serão conhecidos; ainda assim, é consolador saber que nós, como classe, contribuímos para o mundo".
(Selina Cooper, em artigo intitulado "The Lancashire Factory Girl", 1898)