domingo, 7 de julho de 2013

CIPÓ, 82 ANOS DE EMANCIPAÇÃO. CADÊ NOSSA HISTÓRIA?



Antes, um pequeno povoado, chamado Mãe D´água, perdido no meio do sertão.  Hoje, uma jóia esquecida no fundo do baú de uma madame decrépita: a administração pública.
 Oitenta e dois anos se foram e o pequeno povoado, onde o médico Dr. Adriano Pondé fez suas pesquisas nos anos 1920, impulsionado pelo potencial de suas águas curativas, tornou-se uma cidade. Em torno das cálidas águas, ela cresceu. No meio do sertão, onde o calor faz ferver a terra, um oásis de beleza: Caldas de Cipó. Com o potencial turístico e a construção da ponte sobre o Rio Itapicuru ampliando a malha rodoviária de um Brasil que queria florescer industrialmente, Caldas de Cipó tornou-se a Princesinha do Sertão, com suas águas medicinais e aqui chegavam pessoas não só do Brasil, mas de várias partes do mundo buscando tratamento.
Nos anos de ouro, o povo cipoense viu a construção do Grande Hotel, que abrigava a elite da época, o Radium Hotel, o funcionamento do cassino, em pleno vapor, pois os jogos de azar eram legalizados. O Clube Balneário era um espetáculo à parte, com seus banheiros a sua impressionante piscina termal.
Passados 82 anos, pergunto: o que foi feito? Não podemos viver no passado, mas é preciso preservar a nossa história para termos um futuro. Hoje Cipó é apenas uma pálida sombra  do que foi um dia.
Cada vez que sento-me à Praça Juracy Magalhães, contemplo com tristeza o Grande Hotel, fadado ao descaso da Bahiatursa e da prefeitura Municipal que há muitos anos parece anestesiada demais para perceber que o prédio está ruindo. O Radium Hotel, mesmo alvo de uma disputa judicial não merece o tratamento desrespeitoso que tem. Árvores crescem em sua fachada e as pessoas parecem não perceber que suas raízes apodrecem a estrutura e que podem causar acidentes graves.
E o Teatro Genésio Sales, o Posto de Puericultura? São prédios que pertencem á cidade e que estão há muito, abandonados.
O Clube Balneário, desse ninguém lembra. De um passado antes glamouroso, hoje está fadado às ruínas. Não podemos viver de saudade, mas o que está sendo feito com o nosso patrimônio artístico, histórico e cultural está sendo vergonhoso.
São louváveis os esforços de muitos cipoenses para fortalecer a nossa identidade, compartilhando fotografias e relatos de seus acervos pessoais, mas precisamos mais do que isso. Somos uma cidade digna de possuir um museu e temos espaços para isso. O que não se tem é boa vontade.
Enquanto estivermos preocupados apenas com a qualidade dos artistas que são trazidos para o Aniversário da Cidade, deveríamos nos preocupar com o futuro dela, com o que queremos para nós mesmos e para os nossos filhos. Certamente, um dia voltarei e quero que meus netos possam se orgulhar de suas origens  e ter o prazer de visitar uma velha avó que mora numa cidadezinha do sertão!

Niclécia Gama

Imagens do Clube Balneário em ruínas - Google Imagens

terça-feira, 2 de julho de 2013

Seis meses da Administração 55



DEPOIS DO SÃO JOÃO, UM BALANÇO DOS SEIS MESES DA ADMINISTRAÇÃO 55 EM CIPÓ




Como alguns previram, o portal do Carnaval, no dia 20/06 estava sendo revestido para o São João.  A Prefeitura parece que aprendeu a política dos 3R (Reutilizar, Reduzir e Reciclar), mas só pôs em prática um: o R de REUTILIZAR. O governo 55 precisa aprender também a REDUZIR. O quadro de funcionários da Prefeitura está inchado. Tem muito cacique pra pouco índio.
A administração pública cipoense perdeu o rumo e agora busca assessoria externa para tentar reverter a  situação. Nos treze dias em que estive em Cipó percebi a maior parte da população insatisfeita, inclusive os que apoiaram o novo governo.
Em conversas com alguns professores, descobri que o depósito da Secretaria de Educação está abarrotado de livros que não foram entregues aos alunos e que quando um livro é solicitado, a responsável pelo setor, usando as palavras da professora, exige tanto “licuticho” que acabam desistindo de pedir os livros que por direito pertencem aos alunos. Espero não vê-los jogados ao relento no fundo do Grande Hotel, que tem sido desde o governo PT de depósito de inservíveis.
A população precisa saber a que empresa pertence os compactadores de lixo. Tenho cá minhas desconfianças, mas, certamente o contrato deve ultrapassar os seis dígitos. A Prefeitura está alugando imóveis residenciais para alocar suas secretarias por valores que ultrapassam o mercado imobiliário da região, sem contra o sem-número de carros particulares locados pela mesma.
Segundo fontes internas, antes de fechar o semestre a Prefeitura já havia estourado o orçamento do município para 2013. Está na hora de aprender a REDUZIR despesas. O erário não é para utilizado irresponsavelmente.
O que pude perceber foi a luta de um só: enquanto o prefeito luta para legitimar sua postura de honestidade, seus assessores extrapolam o bom-senso. Carros oficiais, comprados com nosso dinheiro, usando combustível pago pelos nossos impostos circulam pela cidade inteira sendo utilizados para fins particulares. E essa ninguém me contou: eu vi!
Falta uniformidade de procedimentos na Educação, na Saúde e em outras áreas. Alguns secretários estão “tirando leite de pedra” tentando fazer seu trabalho, enquanto outros imaginam estar vivendo como Alice: no País das Maravilhas. O turismo está às moscas, com as piscinas do toboágua sem manutenção e, graças a Deus, interditadas e virando criadouro de mosquitos.
A festa de São João foi um fiasco, apesar da prefeitura ter um monte de bandas contratadas. Algumas foram embora sem tocar simplesmente porque não deu tempo e outras por não terem recebido o seu cachê. Alguns excelentes artistas da terra como Enock do Acordeon e Nildo é Show. Percebi que as pessoas na praça estavam desanimadas, apáticas e a atração principal do São João, os sertanejos Edu e Maraial só se apresentaram pela manhã, uma falta de respeito aos artistas e, principalmente ao público que teve de esperar a madrugada inteira e a aurora para vê-los.
Enquanto isso, na cidade vizinha, que até pouco tempo atrás não realizava uma festa significativa, a festa simplesmente “bombava”, com boas atrações  e, principalmente, um público animado, sem espaço para circular de tão lotado, do palco ao final da rua. E lá estavam muitos cipoenses, inclusive eu, que decepcionados com a apatia, resolvemos fugir para Nova Soure.
Será que a falta de animação do povo está refletindo o desgosto que os cipoenses estão experimentando com a administração 55?  Cipó está às escuras, apesar de a Prefeitura ter adquirido 50.000,00 de materiais elétricos de uma empresa que faz transporte escolar, segundo o Diário Oficial dos Municípios.
A população enfrenta um surto de virose e o Hospital enfrenta uma situação dificílima: a estrutura física está comprometida e a estrutura humana idem, devido à falta de médicos nos PSFs, o que tem sobrecarregado o serviço de urgência e emergência. Passaram-se seis meses e eu gostaria de escrever por outro prisma, apontando sucessos.
Nas ruas fui perguntada porque deixei de escrever para o site arildoleone.com e uma pessoa teve a petulância de me dizer que haviam comentários que eu teria recebido dinheiro para deixar de criticar a administração atual. Esclareço: minha fonte de renda é o meu trabalho em Salvador, do qual tenho orgulho e o exerço com responsabilidade e dignidade. Portanto, aos especuladores, às batatas!
Todos nós, cipoenses, independentemente de partido, esperávamos alguma mudança significativa, mas nesses seis meses vi como mudança horrorosas lixeiras vermelhas nas calçadas e muitos quebra-molas nas ruas e me pergunto sempre: a que preço? Só as águas do tempo dirão.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

A INFÂNCIA PEDE SOCORRO


" É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão".
(Art. 277 da Constituição Federal)

Ao ler as últimas notícias ou ver os noticiários na televisão, é impossível não se indignar com a falta de proteção às crianças. Não é apenas o Estado que lhe deve assistência, mas é a família a primeira instituição que lhe deve amparo em todos os seus aspectos.
Em alguns casos, é essa família, que deveria proteger a criança, quem a violenta, de duas formas: o agressor, que pratica o ato e quem se omite, por medo, por insegurança ou simplesmente por não desejar defender  a criança agredida. A maior parte dos casos de violência sexual contra crianças e adolescentes é praticada por pessoas da família (tios, padrasto, irmãos, primos ou pai) ou por pessoas que convivem com a vítima (amigos ou conhecidos).
Além do terror físico, que é ter seu corpo imaturo maculado pela perversidade e pelo desejo bestial de possuir um ser indefeso, soma-se a isso o terror psicológico, como o medo, a ameaça, o sentimento de culpa e de rejeição e as marcas profundas que este ato cruel e desumano que essa barbaridade deixará na mente dessas crianças.
Também nós, sociedade civil, devemos estar atentos ao que nos cerca. Não fosse o senso de responsabilidade da diretora da escola na qual a menor estuda, o caso passaria apenas como mais um entre tantos, como os vizinhos deixaram passar.
Uma criança que grita e pede socorro, mesmo na intimidade do seu lar, é uma voz a ser ouvida. A polícia deve imediatamente ser acionada para investigar.
O caso de Ribeira do Pombal tem um agravante ainda maior: a criança está grávida. Se esse processo não for célere, e o aborto não ocorrer como prevê a legislação, ela certamente dará à luz a outra criança, indesejada, fruto de um crime hediondo como é o estupro e provavelmente, nem saberá como lidar com essa realidade.
Há uma sequencia de atrocidades na vida dessa menina: toda criança confia na mãe, com quem cria seu primeiro vínculo afetivo. Mas que mãe é essa que se cala, que se nega a proteger sua filha? E a desculpa que não denunciou porque ele a ameaçou de bater? Porque não denunciou esse homem pela ameaça e pelo que ele fez à sua filha? Parece-me que essa mãe foi conivente com o ato, o que a faz tão responsável quanto esse monstro. Essa criança será apontada pelas ruas, será questionada por vizinhos, colegas, sua vida está destruída. Que apoio psicológico e social ela terá?
Acho que esse é um dos textos mais dolorosos que já escrevi. É muito difícil escrever pois a figura que tenho de meu pai é do pai cuidadoso, protetor, amoroso, confiável e  os meus filhos têm a mesma referência em relação ao meu marido.  Tento me colocar no lugar dessa criança para pensar melhor sobre o acontecido, mas é nojento demais imaginar sua agonia. Retorna à mente o caso da menina Luciene, de 09 anos, estuprada por seus vizinhos, quando Arildo foi delegado. Estou indignada, ferida, como mãe que protege sua filha e como mulher que sou. Sexo é ato consensual, é troca, e mais importante, deve ser entre duas pessoas que tem consciência de seus atos e suas conseqüências.
O crime cometido por esse ser desprezível, como o são todos os pedófilos, é o de ESTUPRO DE VULNERÁVEL, que segundo o Estatuto da Criança e do Adolescente é “ Ter conjunção carnal ou praticar outro ato libidinoso com menor de 14 (catorze) anos” (art. 217) e a pena é de reclusão, de 8 (oito) a 15 (quinze) anos.
 Que seja feita a justiça e que esse infeliz pegue a pena máxima! E não nos esqueçamos de nossa responsabilidade de denunciar agressores. As denúncias podem ser anônimas, discando 100 de qualquer telefone público.

Niclécia Gama

quinta-feira, 24 de março de 2011

BODAS

Estava arrumando a sala quando se lembrou que já era a hora. Eram quase oito, mas havia se distraído também na conversa com a sua mãe. Correu para o guarda-roupa para procurar as meias. Desarrumou as gavetas, jogou para cima uma infinidade de coisas, mas as meias não apareciam.
No fundo da gaveta, encontrou um saco de bexigas de soprar. Algumas vermelhas, algumas rosa-choque. Calçou-as e olhou para os pés. Até que lhe caíam bem, mas na pressa, havia calçado uma de cada cor. Corrigiu optando pelas bexigas rosa-choque, que moldando-lhe os pés, pareciam mais femininas.
E o sapato? Nada de encontrar algum que combinasse com a ocasião. Esquecera de comprar. Também, com uma vida corrida daquelas, era bem capaz que esquecesse a própria cabeça, se esta não lhe fosse colada ao pescoço. Por fim, não encontrando nada apropriado, calçou um tamanco de salto anabela, rodeado de cortiça. Horroroso, achou, mas foi o que lhe veio à mente.  Para não lhe criticarem enquanto se dirigia à igreja, pôs por cima das meias de bexiga, um par de meias brancas que a filha usava para ir à escola.
A igreja, que parecia mais o Centro de Abastecimento da cidade, era um galpão aberto, de um horrível azul e com azulejos em azul e branco, assemelhando-se à antiga Cesta do Povo das Sete Portas. Até a grade era azul. Não tinha paredes e, no amplo vão, distribuíam-se toscos bancos de madeira com um tapete vermelho ao centro, desbotado e puído.
Na frente, abarrotavam-se camelôs de CDs e DVDs pirata, cada um gritando mais alto e com o som infernalmente ligado disputando os clientes transeuntes.
Finalmente chegara. Já atrasada, desceu correndo do táxi. As daminhas já adentravam o vão e a florista, que era sua filha, espalhava as flores no velho tapete. O noivo, ansioso, pois não gostava daquelas frescuras todas, suava em bicas.
Quando olhou para o tapete, nervosa descobriu que a filha não jogara as pétalas, mas buquês inteiros. Onde estavam com a cabeça que não despetalaram aquelas flores?  Ralhou com a menina, a chamou de volta e obrigou a coitadinha, naquele vestido pesado, a entrar novamente, desta vez, espalhando as pétalas de orquídeas roxas, das quais tanto gostava.
Os pés lhe doíam, mas como o vestido era longo, eles não iam aparecer, resolveu entrar assim mesmo, só com as meias brancas e, por baixo delas, as meias de bexiga rosa-choque.
O pai, orgulhoso, a levava ao altar para entregá-la ao marido com quem vivia há mais de dezessete anos. Não entendia o porquê daquela cerimônia, já que ela nunca manifestou o desejo de se casar na igreja, muito menos, vestida daquele jeito.
À entrada da noiva, a igreja, aberta como o sorriso banguela dos matutos, se enche de música: “Venha comprar no Mercadão, aqui o Senhor aumenta suas bênçãos”. Amarelou. Como podia aquele padre, ao invés de tocar a marcha nupcial, tocar uma propaganda, só porque o dono Mercadão era colaborador dizimista da igreja?
Mandou parar tudo. No altar, o noivo suava mais ainda. Lembrou-se desesperada que não tinha dado a mídia com as músicas da cerimônia ao coroinha. Correu para os camelôs na porta da igreja. Encontrou um DVD de Fábio Júnior, mas não tinha nenhuma música apropriada. No concorrente, achou apenas música sertaneja, que ela odiava. Mas, escondidinho, tinha um CD de Vanessa da Mata. Gostava da música “Amado”, mas vestida de noiva, não estava com a carteira. Implorou ao vendedor que vendesse fiado, que ela iria se casar, estava na igreja e blá, blá, blá, mas o moço estava irredutível. Não iria vender um CD fiado a uma maluca vestida de noiva, sem sapatos, de meia branca colegial e que vira por baixo, umas meias rosa-choque que lembravam o látex de bexigas de aniversário!
Os convidados se mostravam impacientes. A música infernal do Mercadão ainda tocava. Despencou-se para o marido para pedir-lhe o dinheiro para comprar o CD, mas ele insistia que não precisava, que o importante era a cerimônia, que a música era só um simples detalhe. A cada palavra, ela se enfurecia mais. Por que ela resolvera se casar com ele? Já não estavam bem juntos? Os filhos já não estavam crescidos?  Os convidados cochichavam e alguns já ameaçavam levantar e ir embora, e o marido não abria a carteira. Perdendo a paciência ela começou a gritar:
_ Não quero! Não quero me casar com essa música horrorosa! Não quero! 
A música do Mercadão continuava a tocar e ela gritava mais ainda:
_ Não quero! Não quero!
Sentiu uma mão lhe sacudindo, quando o último grito lhe escapou pela garganta. Olhou para o lado e o marido, assustado, indagou:
_ Você estava tendo um pesadelo?

quinta-feira, 17 de março de 2011

Ser mulher

Sou Mulher


           Não desejo mais o que desejava há alguns anos atrás.
          Quero ser reconhecida pelo meu valor, por dividir contigo as responsabilidades do que chamamos de lar.
          Não desejo ser Amélia, desejo fazer contigo e compartilhar as realizações da “mulher de verdade.”
          Desejo o batom mais provocante, a roupa mais ousada, o sexo pelo prazer, mas não desejo ser você.
          Não desejo competição, desejo caminhar lado a lado contigo.
          Não desejo o seu lugar, desejo a igualdade de oportunidades, o respeito, o meu lugar no mundo.
          Não desejo destruir seu mundo, mas construir o mundo com você.
          Por tudo que me dizes, por tudo que me fazes me fazes, desde tempos imemoriais, me desconstruo, mas recobro minhas forças e me reconstruo e cada dia, afinal, sou mulher...
                          Niclécia Gama

                 Foi com esse texto que encerrei a palestra proferida na Câmara de Vereadores de Caldas de Cipó, no dia 15/03/2011 em seção solene em homenagem ao Dia Internacional da Mulher. Estavam presentes várias mulheres que contribuem para o fortalecimento da imagem feminina na sociedade cipoense, além de heroínas anônimas que a cada dia lutam pela manutenção de seus lares e suas famílias nos aspectos econômicos e sociais, além de psicológicos.
               Contamos também com a palestra de Dra. Rute Brasil, que falou das mulheres importantes desde o início do cristianismo até os dias atuais e o nosso papel para a educação da sociedade.
                 A iniciativa foi da atual presidente da Câmara, a vereadora Renata Brito, que se mostrou uma cicerone nata, dada a organização do evento. Foram laureadas com as medalhas "Mulher Brilhante", empresárias como Perpétua Macedo, Odete Souza, sindicalistas, e outras representantes da sociedade cipoense,como Noélia Souza e outras mulheres brilhantes, que nos leva a perceber o empoderamento feminino diante a sociedade dominada pelo sexo masculino.
                 A luta das mulheres pelo direito ao voto, pelo direito à educação formal, por seus direitos à dignidade, à não-violência e a equidade nas relações de trabalho é histórica e somente agora, no século XXI, alguns direitos se consolidam. Ainda temos muitos caminhos a percorrer. Queremos o direito de sermos atendidas com dignidade em áreas como saúde, educação, acesso a serviços sociais e respeito. Sim, a nossa luta por respeito à nossa condição ímpar, já que somos ao mesmo tempo, trabalhadoras, mães, esposas, dentre outras atribuições, nunca poderá deixar de existir. 
                 Muitas de nós ainda são estupradas por seus maridos e companheiros porque acreditam que tem direito ao sexo e ao prazer na hora em que bem entendem. Queremos o direito ao nosso corpo, sem precisar mentir que estamos menstruadas ou com dor de cabeça. Queremos o direito de dizer o que pensamos, sem medo de represálias. Queremos ter o direito de ser atendidas com dignidade  pelos órgãos públicos, em casos como o aborto, a violência,o câncer, a aids e outras causas que nos matam.
                Não queremos ser homens, não queremos ser melhores que eles. Queremos ser iguais em direitos, como reza a Constituição Federal. Iguais, mas diferentes dentro de nosssas especificidades.

Para Pensar:



Nesses dados não está inclusa a violência nossa de cada dia, mas ainda somos  vítimas de abusos sexuais e outros atos violentos, como o preconceito, a discriminação e o racismo.
Abaixo estão os principais tipos de violência que  sofremos a cada dia:

Violência de gênero (principalmente nas relações de trabalho)
Violência intrafamiliar
 Violência doméstica
Violência física
Violência sexual
Violência psicológica 
Violência econômica ou financeira
Violência institucional(mau atendimento em órgãos públicos)
Graças a Lei Maria da Penha, o número de denúncias de agressões aumentou em 112%. Apesar de algumas polêmicas geradas por esta lei, que passará por uma revisão jurídica, nos dá a segurança de que os agressores serão punidos. Defendo o inquérito justo, com coleta de provas, audiências em que se ouça ambas as partes, exames de corpo de delito e defendo o nosso direito de sermos assistidas com dignidade perante a lei.
Uma reflexão:
 

"Eu tenho escutado freqüentemente comentários sarcásticos quanto às mulheres que trabalham em fábricas do tipo - oh, ela é apenas uma operária; o que dá ao mundo a impressão que nós não temos o direito de sonhar com uma outra realidade a não ser a nossa. Eu lamento que ainda não estejamos atentas aos fatos e que percebamos que contribuímos muito para aumentar a riqueza da nação e, que em função disso, temos direito a respeito e não insultos. Pois em muitas casas de Lancashire há heroínas cujos nomes nunca serão conhecidos; ainda assim, é consolador saber que nós, como classe, contribuímos para o mundo".
(Selina Cooper, em artigo intitulado "The Lancashire Factory Girl", 1898)

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Olha Pipoca aí, gente!!!!

Educar sem castigo: uma proposta viável

Diz o ditado popular que “pé de galinha não mata pinto”, mas de acordo com as estatísticas, muitas de nossas crianças têm sido mortas graças à violência familiar. De acordo com os dados do Ministério da Saúde obtidos através do VIVA (Sistema de Vigilância em Violência e Acidentes), entre 2006 e 2007, 61% das internações de crianças e adolescentes tiveram como causa a violência física. Desse percentual, 45% foram causadas pelos pais, os principais autores de violência contra crianças de 0 a 9 anos. Por dia, morrem no Brasil cerca de 100 crianças vítimas de maus tratos. Isso significa que a cada hora morrem cerca de 4 crianças por causa do abuso físico.
Por causa dos números alarmantes e pelo saldo dos danos físicos e psicológicos, está tramitando no Congresso Nacional o Projeto de Lei nº 7672/2010, que visa coibir o uso de castigos físicos, humilhantes e degradantes à criança e ao adolescente. É a chamada “lei da palmada”. De acordo com a proposta, a definição de “castigo” passa a ser incluída no artigo 18 do Estatuto como “ação de natureza disciplinar ou punitiva com o uso da força física que resulte em dor ou lesão à criança ou adolescente”. “Aqueles que infringirem a lei podem receber penalidades como advertência, encaminhamento a programas de proteção à família e orientação psicológica”, destaca Márcia Guedes, promotora da Infância e Adolescência do Ministério Público do Estado da Bahia, em Salvador.
È um projeto de lei polêmico, principalmente para muitas famílias as quais acreditam que a “palmada pedagógica” é a melhor solução para educar seus filhos. A lei não diz que os pais serão punidos por dar uma palmada, mas vem coibir os excessos. Todos nós conhecemos histórias de pais que queimavam seus filhos com talheres quentes, ferros de passar roupa, ovos quentes na palma da mão, espancamentos com chicotes, cordas ou mangueiras.
Talvez por falta de informação, essa tenha sido a única ferramenta que conheciam para disciplinar seus filhos, mas as marcas psicológicas certamente ficaram impressas nessas pessoas. A violência doméstica não visa a destruição do outro, mas transforma as pessoas que tendem a repetir os atos sofridos com seus cônjuges ou filhos. Ela ocorre num ciclo vicioso que precisa ser quebrado.
Podemos sim educar nossos filhos numa cultura de paz que começa no nosso lar. Bater não é sinônimo de autoridade e sim de autoritarismo. Uma criança não tem a mesma compleição física de um adulto, uma simples palmada pode ocasionar um traumatismo grave. Muitas crianças chegam aos hospitais sem marcas físicas da violência, mas que foram sacudidas pelos pais porque choravam. É a Síndrome do Bebê Sacudido, que causa concussão cerebral e pode levar à morte.
Portanto, se aprovada, a Lei será um marco divisor para a mudança dos hábitos de castigo cruel em muitas famílias. Muitos de nós levamos umas boas palmadas, e até poderemos ter dado umas palmadas em nossos filhos, mas cabe-nos mudar o paradigma da violência e ensinar às novas gerações a linguagem da paciência, da tolerância e do amor.
A lei não é contra o castigo. É possível castigar tirando momentaneamente uma atividade que a criança gosta, ou a deixando refletir por alguns minutos sobre seus atos. Devemos lhes ensinar também algumas “palavrinhas mágicas”, como um pedido de desculpas, um por favor.
Lembremo-nos que as crianças não constroem sua história sozinhas. Precisam de nós para construí-la de uma maneira saudável. Ela não deve ser vista como um objeto da família, com o discurso recorrente de que “é meu filho, eu faço com ele o que eu quiser”. Ela é um sujeito titular de direitos, assegurados pela Constituição Federal e pelo Estatuto da Criança e do Adolescente”, portanto é dever da família educa-la e protegê-la em todos os aspectos de seu desenvolvimento, ela é um sujeito social e titular de direitos humanos.
Vamos fazer parte desse movimento! Acesse os sites para maiores informações e dissemine-as entre seus amigos e família.
É hora de dar um basta! Não seja conivente com a violência.

www.naobataeduque.org,br
www.acabarcastigo.org.br
www.crin.org/violence
www.mp.ba.gov.br

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Primeiro amor- conto


Naquela tarde, cheguei da escola e fui correndo para a caixinha onde ele morava. Tinha o hábito de abri-la e colocar a mão para ele subir até meu pescoço, me cheirando com o narizinho tremelicando. Havia uns quatro meses que cumpria o mesmo ritual. Chegava da escola, abria a caixa, punha as mãos para ele subir e depois íamos para a cozinha, para alimentá-lo e brincarmos um pouquinho.
Durante as férias na casa da minha avó, que ficava num bolsão de caatinga cortado pela estrada, um dos meus primos havia armado uma arapuca e, desavisadamente, um preá fêmea havia caído ali e ali mesmo dado à luz a dois pequenos filhotes. Não se sabe exatamente por que, o doido resolveu matar e comer a pobre mãe, deixando os filhotes órfãos.
Se eu não tivesse aparecido na casa dele no fatídico dia, os pobrezinhos certamente teriam morrido de fome. Com cuidado, peguei um velho chapéu de sisal e os acomodei. A natureza é bem sábia, logo que nascem os preás estão prontos para correr pela caatinga em busca das touceiras protetoras das macambiras e gravatás. Os dois estranharam o ambiente pouco acolhedor do chapéu e logo queriam pular para fora, mas o fechei com cuidado e voltei saltitante para a casa da minha avó, levando a preciosa carga.
Logo meus tios vieram me avisar, rindo às minhas custas, que os dois logo fugiriam, mas insistente, coloquei o chapéu no centro de um rolo de corda e tentei os alimentar com leite e passei o dia inteiro carregando os dois para cima e para baixo. À noitinha, os acomodei novamente no chapéu e dormi ansiosa para que o dia amanhecesse logo para cuidar de meus rebentos.
Para minha tristeza, um deles havia sumido. Chorei pitangas pensando no que podia ter havido. Uma cobra poderia ter comido o filhote ou os terríveis ratos do campo, com seus dentões assassinos. Procurei insistentemente no velho depósito onde os havia deixado, mas não o encontrei. Lembro de ter rezado e pedido a Deus que o protegesse e resolvi que amaria para sempre o filhote que havia restado.
Na segunda-feira cedinho, voltava para a cidade. Sabia que a minha mãe não aceitaria a idéia de termos aquele bichinho em casa, mas a convenceria a criá-lo, dada a sua triste história. Arrumei com uma das minhas tias que era revendedora de cosméticos, uma caixa não muito grande, mas espaçosa o suficiente para que ele pudesse se movimentar, e com a minha avó paterna, que morava na cidade, um saco de cebola, daqueles que parecem uma tela e fiz para ele um lar aconchegante.
Quando chegava da escola, antes de qualquer coisa, ia à busca da caixinha. Nosso relacionamento se afinava a cada dia e o preazinho ficava cada dia mais esperto. Gostava de subir pelo meu braço e se aninhar no meu pescoço, com seu focinho molhadinho. Um preá da caatinga não é lá um bicho lindo, tem um pelo russo, olhos negros e brilhantes e as patinhas pretas, além de dois pares de dentes bem grandes e fortes para roerem tudo que acham pela frente. Mas como eu era apaixonada por ele, para mim, era o bicho mais lindo do mundo.
Mas naquela tarde, ele estava diferente. Coloquei minha mão na caixa e ele não subiu. Peguei-o cuidadosamente e o levei para a minha cama. Pus a mão novamente na frente dele, e ao invés de subir, ele deu uns passinhos para trás. Olhei os seus olhos pretinhos e percebi que ele estava diferente. Peguei-o novamente percebi que ele estava todo molinho, parecendo que estava com dor. Comecei ia chorar e perguntei à minha mãe se tinha acontecido algo e ela titubeou ao responder.
Fazia tempo que minha irmã caçula, uma pestinha de três anos, treinava para dar banho no pobrezinho. Eu tinha lhe explicado que ele era um bicho da caatinga e que no mato onde ele morava não chovia, por isso ele não precisava tomar banho e parecia que ela tinha desistido da idéia. Naquele dia, minha mãe lavou a roupa da casa e foi surpreendida pelo trocinho de cabelos cacheados, segurando o preá, meio inerte nas pequenas mãos, pedindo um prendedor de roupa.
_ Para que você quer um prendedor, Fernanda?
_ “Pá” secar o “peazinho”, mãinha. Eu dei banho nele e torci assim, ó!
Perdi assim o meu primeiro amor...

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Entre um colar e um conto

Quando chegou, comentou que achou bonito o meu colar. Perguntei-lhe o dia do seu aniversário e me disse a data, mas que não gostaria de ganhar o colar, mas um conto. Comecei a pensar o que poderia escrever sobre ela.


Nos conhecíamos há quase três anos. Lembro-me bem de quando chegou à escola, como agente da Editora Aymará. Nessa época eu assumia a direção de uma escola, no bairro da Liberdade. Chegou tímida, com uma longa saia branca. Pedi que se acomodasse enquanto eu atendia alguns alunos, mas na minha sala não tinha sequer uma cadeira disponível, estava tomada de livros.

Conversamos e a levei para conhecer a escola. Nos aproximamos a cada visita e na Semana das Crianças, ela conheceu Pipoca, meu personagem palhaço. Começava aí um relacionamento mais informal, mais divertido.

Um dia, enquanto conversava com uma professora sobre um jeito de ensinar matemática, ela confessou timidamente que gostaria de ter, na sua infância, uma professora assim e confessou as dores de ter sofrido bullying de uma professora. Nessa época nem se falava nisso, mas as suas marcas atravessam o tempo.

Deu uma vontade, de acolhe-la, de abraça-la. Acho que o fiz quando nos despedimos. Faço isso sempre, pois adoro quando ela chega.

Quem é, quem é? Cristina Mendonça. Pé-de-pato, mão-de-onça. Não que ela seja assim. É só pra rimar. Gosto do sorriso dela, do jeito tímido, do olhar. Gosto quando ela nos visita, e quando seus olhos brilham com as nossas ideias e projetos. É uma paulista que se “abaianou”. Apesar de seu jeito quieto, é uma alma pulsante. A mais nova é que ela agora anda aprendendo a pilotar moto.

Pois é, pois é... Entre um colar e um conto, cá está... Não é bem um conto, é uma descrição, mas taí, Cris. Você merece, com direito a publicação no Zoinho Curiando. Feliz aniversário! Que Deus ilumine seus caminhos. Não preciso dizer o quanto você é querida, não apenas por mim e pela equipe do Centro de Arte, mas por todos que convivem com você e isso não acontece somente pela sua qualidade profissional, mas pela PESSOA que você é.

Taí o conto. Será que ganha também um colar?

Um beijo no seu coração.

Niclécia (e Pipoca)

domingo, 12 de setembro de 2010

PAI, AFASTA DE NÓS ESSE CALE-SE!


Quando vivemos os horrores da ditadura militar, entre 1960 e 1988, a liberdade de expressão das pessoas e dos veículos de comunicação era cerceada por . Pessoas imbuídas de valores, crenças e ideologias que convergiam com os interesses daqueles que detinham o poder.  Artistas, pensadores, críticos do sistema eram exilados ou “desapareciam”. O saldo político desse sistema foi desastroso!
O PT foi nessa época, o partido da resistência, dentre outros partidos. Por isso, fico desapontada com as ações de alguns políticos que contrariam a proposta ideológica do partido, que aliás vem sendo diluída ao longo dos anos pelos prepostos que aí estão a governar.
O PT perdeu a credibilidade, desde os escândalos envolvendo o Zé Dirceu e o Palocci. Não se enganem achando que a Dilma vai ser o Lula de saias, nem que o Serra vai ser o salvador da saúde e da educação (lembram que no início do ano ele mandou “baixar o pau” nos professores grevistas em São Paulo? Eu não esqueci... Como professora que sou, me senti violentada também). Não temos hoje candidatos competentes para assumir a presidência da República. Os outros não estão no páreo. Pode ser que a Marina surpreenda. Quebram-se os sigilos. A mando do PT? Um golpe do PSDB? Para favorecer a quem?
E por falar em sigilo, qual a intenção do Gabinete do Prefeito ter o nome completo, RG e CPF do locutor “Branquinho”? Há uma prerrogativa jurídica para exigir esses documentos?  O prefeito perdeu a cabeça ou está mal assessorado? Com tantos milhões em caixa, ainda dá tempo de tentar recuperar a imagem, já tão arranhada, pelo menos para os eleitores mais ingênuos. Ainda dá para trabalhar pela cidade, pelos interesses do povo, para quem exerce o poder, e de quem emana o poder, pressuposto básico para o exercício da democracia.
Acredito que estamos amadurecendo politicamente e não podemos aceitar esse tipo de coação. Chico Buarque cantava “Pai, afasta de mim esse cálice” porque não podia explicitar seu pensamento. Ainda bem que alguns censores não tinham perspicácia suficiente para perceber trocadilhos e canções de protesto passavam quase incólumes.
Não preciso dizer que sou defensora da LIBERDADE, seja de expressão, de orientação sexual, de crença ou qualquer outra. A nossa liberdade individual só não pode atentar contra os princípios do direito e da ética. Já dizia o filósofo francês Voltaire “posso não concordar com nenhuma de tuas palavras, mas morrerei defendendo o teu direito de dizê-las.
Graças a Deus e à luta de heróis esquecidos hoje posso gritar se assim desejar, e, nesse momento quero fazê-lo: PAI, AFASTA DE NÓS ESSE CALE-SE!  Abaixo a censura, abaixo a coação!