segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Primeiro amor- conto


Naquela tarde, cheguei da escola e fui correndo para a caixinha onde ele morava. Tinha o hábito de abri-la e colocar a mão para ele subir até meu pescoço, me cheirando com o narizinho tremelicando. Havia uns quatro meses que cumpria o mesmo ritual. Chegava da escola, abria a caixa, punha as mãos para ele subir e depois íamos para a cozinha, para alimentá-lo e brincarmos um pouquinho.
Durante as férias na casa da minha avó, que ficava num bolsão de caatinga cortado pela estrada, um dos meus primos havia armado uma arapuca e, desavisadamente, um preá fêmea havia caído ali e ali mesmo dado à luz a dois pequenos filhotes. Não se sabe exatamente por que, o doido resolveu matar e comer a pobre mãe, deixando os filhotes órfãos.
Se eu não tivesse aparecido na casa dele no fatídico dia, os pobrezinhos certamente teriam morrido de fome. Com cuidado, peguei um velho chapéu de sisal e os acomodei. A natureza é bem sábia, logo que nascem os preás estão prontos para correr pela caatinga em busca das touceiras protetoras das macambiras e gravatás. Os dois estranharam o ambiente pouco acolhedor do chapéu e logo queriam pular para fora, mas o fechei com cuidado e voltei saltitante para a casa da minha avó, levando a preciosa carga.
Logo meus tios vieram me avisar, rindo às minhas custas, que os dois logo fugiriam, mas insistente, coloquei o chapéu no centro de um rolo de corda e tentei os alimentar com leite e passei o dia inteiro carregando os dois para cima e para baixo. À noitinha, os acomodei novamente no chapéu e dormi ansiosa para que o dia amanhecesse logo para cuidar de meus rebentos.
Para minha tristeza, um deles havia sumido. Chorei pitangas pensando no que podia ter havido. Uma cobra poderia ter comido o filhote ou os terríveis ratos do campo, com seus dentões assassinos. Procurei insistentemente no velho depósito onde os havia deixado, mas não o encontrei. Lembro de ter rezado e pedido a Deus que o protegesse e resolvi que amaria para sempre o filhote que havia restado.
Na segunda-feira cedinho, voltava para a cidade. Sabia que a minha mãe não aceitaria a idéia de termos aquele bichinho em casa, mas a convenceria a criá-lo, dada a sua triste história. Arrumei com uma das minhas tias que era revendedora de cosméticos, uma caixa não muito grande, mas espaçosa o suficiente para que ele pudesse se movimentar, e com a minha avó paterna, que morava na cidade, um saco de cebola, daqueles que parecem uma tela e fiz para ele um lar aconchegante.
Quando chegava da escola, antes de qualquer coisa, ia à busca da caixinha. Nosso relacionamento se afinava a cada dia e o preazinho ficava cada dia mais esperto. Gostava de subir pelo meu braço e se aninhar no meu pescoço, com seu focinho molhadinho. Um preá da caatinga não é lá um bicho lindo, tem um pelo russo, olhos negros e brilhantes e as patinhas pretas, além de dois pares de dentes bem grandes e fortes para roerem tudo que acham pela frente. Mas como eu era apaixonada por ele, para mim, era o bicho mais lindo do mundo.
Mas naquela tarde, ele estava diferente. Coloquei minha mão na caixa e ele não subiu. Peguei-o cuidadosamente e o levei para a minha cama. Pus a mão novamente na frente dele, e ao invés de subir, ele deu uns passinhos para trás. Olhei os seus olhos pretinhos e percebi que ele estava diferente. Peguei-o novamente percebi que ele estava todo molinho, parecendo que estava com dor. Comecei ia chorar e perguntei à minha mãe se tinha acontecido algo e ela titubeou ao responder.
Fazia tempo que minha irmã caçula, uma pestinha de três anos, treinava para dar banho no pobrezinho. Eu tinha lhe explicado que ele era um bicho da caatinga e que no mato onde ele morava não chovia, por isso ele não precisava tomar banho e parecia que ela tinha desistido da idéia. Naquele dia, minha mãe lavou a roupa da casa e foi surpreendida pelo trocinho de cabelos cacheados, segurando o preá, meio inerte nas pequenas mãos, pedindo um prendedor de roupa.
_ Para que você quer um prendedor, Fernanda?
_ “Pá” secar o “peazinho”, mãinha. Eu dei banho nele e torci assim, ó!
Perdi assim o meu primeiro amor...