quinta-feira, 19 de maio de 2011

A INFÂNCIA PEDE SOCORRO


" É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão".
(Art. 277 da Constituição Federal)

Ao ler as últimas notícias ou ver os noticiários na televisão, é impossível não se indignar com a falta de proteção às crianças. Não é apenas o Estado que lhe deve assistência, mas é a família a primeira instituição que lhe deve amparo em todos os seus aspectos.
Em alguns casos, é essa família, que deveria proteger a criança, quem a violenta, de duas formas: o agressor, que pratica o ato e quem se omite, por medo, por insegurança ou simplesmente por não desejar defender  a criança agredida. A maior parte dos casos de violência sexual contra crianças e adolescentes é praticada por pessoas da família (tios, padrasto, irmãos, primos ou pai) ou por pessoas que convivem com a vítima (amigos ou conhecidos).
Além do terror físico, que é ter seu corpo imaturo maculado pela perversidade e pelo desejo bestial de possuir um ser indefeso, soma-se a isso o terror psicológico, como o medo, a ameaça, o sentimento de culpa e de rejeição e as marcas profundas que este ato cruel e desumano que essa barbaridade deixará na mente dessas crianças.
Também nós, sociedade civil, devemos estar atentos ao que nos cerca. Não fosse o senso de responsabilidade da diretora da escola na qual a menor estuda, o caso passaria apenas como mais um entre tantos, como os vizinhos deixaram passar.
Uma criança que grita e pede socorro, mesmo na intimidade do seu lar, é uma voz a ser ouvida. A polícia deve imediatamente ser acionada para investigar.
O caso de Ribeira do Pombal tem um agravante ainda maior: a criança está grávida. Se esse processo não for célere, e o aborto não ocorrer como prevê a legislação, ela certamente dará à luz a outra criança, indesejada, fruto de um crime hediondo como é o estupro e provavelmente, nem saberá como lidar com essa realidade.
Há uma sequencia de atrocidades na vida dessa menina: toda criança confia na mãe, com quem cria seu primeiro vínculo afetivo. Mas que mãe é essa que se cala, que se nega a proteger sua filha? E a desculpa que não denunciou porque ele a ameaçou de bater? Porque não denunciou esse homem pela ameaça e pelo que ele fez à sua filha? Parece-me que essa mãe foi conivente com o ato, o que a faz tão responsável quanto esse monstro. Essa criança será apontada pelas ruas, será questionada por vizinhos, colegas, sua vida está destruída. Que apoio psicológico e social ela terá?
Acho que esse é um dos textos mais dolorosos que já escrevi. É muito difícil escrever pois a figura que tenho de meu pai é do pai cuidadoso, protetor, amoroso, confiável e  os meus filhos têm a mesma referência em relação ao meu marido.  Tento me colocar no lugar dessa criança para pensar melhor sobre o acontecido, mas é nojento demais imaginar sua agonia. Retorna à mente o caso da menina Luciene, de 09 anos, estuprada por seus vizinhos, quando Arildo foi delegado. Estou indignada, ferida, como mãe que protege sua filha e como mulher que sou. Sexo é ato consensual, é troca, e mais importante, deve ser entre duas pessoas que tem consciência de seus atos e suas conseqüências.
O crime cometido por esse ser desprezível, como o são todos os pedófilos, é o de ESTUPRO DE VULNERÁVEL, que segundo o Estatuto da Criança e do Adolescente é “ Ter conjunção carnal ou praticar outro ato libidinoso com menor de 14 (catorze) anos” (art. 217) e a pena é de reclusão, de 8 (oito) a 15 (quinze) anos.
 Que seja feita a justiça e que esse infeliz pegue a pena máxima! E não nos esqueçamos de nossa responsabilidade de denunciar agressores. As denúncias podem ser anônimas, discando 100 de qualquer telefone público.

Niclécia Gama

quinta-feira, 24 de março de 2011

BODAS

Estava arrumando a sala quando se lembrou que já era a hora. Eram quase oito, mas havia se distraído também na conversa com a sua mãe. Correu para o guarda-roupa para procurar as meias. Desarrumou as gavetas, jogou para cima uma infinidade de coisas, mas as meias não apareciam.
No fundo da gaveta, encontrou um saco de bexigas de soprar. Algumas vermelhas, algumas rosa-choque. Calçou-as e olhou para os pés. Até que lhe caíam bem, mas na pressa, havia calçado uma de cada cor. Corrigiu optando pelas bexigas rosa-choque, que moldando-lhe os pés, pareciam mais femininas.
E o sapato? Nada de encontrar algum que combinasse com a ocasião. Esquecera de comprar. Também, com uma vida corrida daquelas, era bem capaz que esquecesse a própria cabeça, se esta não lhe fosse colada ao pescoço. Por fim, não encontrando nada apropriado, calçou um tamanco de salto anabela, rodeado de cortiça. Horroroso, achou, mas foi o que lhe veio à mente.  Para não lhe criticarem enquanto se dirigia à igreja, pôs por cima das meias de bexiga, um par de meias brancas que a filha usava para ir à escola.
A igreja, que parecia mais o Centro de Abastecimento da cidade, era um galpão aberto, de um horrível azul e com azulejos em azul e branco, assemelhando-se à antiga Cesta do Povo das Sete Portas. Até a grade era azul. Não tinha paredes e, no amplo vão, distribuíam-se toscos bancos de madeira com um tapete vermelho ao centro, desbotado e puído.
Na frente, abarrotavam-se camelôs de CDs e DVDs pirata, cada um gritando mais alto e com o som infernalmente ligado disputando os clientes transeuntes.
Finalmente chegara. Já atrasada, desceu correndo do táxi. As daminhas já adentravam o vão e a florista, que era sua filha, espalhava as flores no velho tapete. O noivo, ansioso, pois não gostava daquelas frescuras todas, suava em bicas.
Quando olhou para o tapete, nervosa descobriu que a filha não jogara as pétalas, mas buquês inteiros. Onde estavam com a cabeça que não despetalaram aquelas flores?  Ralhou com a menina, a chamou de volta e obrigou a coitadinha, naquele vestido pesado, a entrar novamente, desta vez, espalhando as pétalas de orquídeas roxas, das quais tanto gostava.
Os pés lhe doíam, mas como o vestido era longo, eles não iam aparecer, resolveu entrar assim mesmo, só com as meias brancas e, por baixo delas, as meias de bexiga rosa-choque.
O pai, orgulhoso, a levava ao altar para entregá-la ao marido com quem vivia há mais de dezessete anos. Não entendia o porquê daquela cerimônia, já que ela nunca manifestou o desejo de se casar na igreja, muito menos, vestida daquele jeito.
À entrada da noiva, a igreja, aberta como o sorriso banguela dos matutos, se enche de música: “Venha comprar no Mercadão, aqui o Senhor aumenta suas bênçãos”. Amarelou. Como podia aquele padre, ao invés de tocar a marcha nupcial, tocar uma propaganda, só porque o dono Mercadão era colaborador dizimista da igreja?
Mandou parar tudo. No altar, o noivo suava mais ainda. Lembrou-se desesperada que não tinha dado a mídia com as músicas da cerimônia ao coroinha. Correu para os camelôs na porta da igreja. Encontrou um DVD de Fábio Júnior, mas não tinha nenhuma música apropriada. No concorrente, achou apenas música sertaneja, que ela odiava. Mas, escondidinho, tinha um CD de Vanessa da Mata. Gostava da música “Amado”, mas vestida de noiva, não estava com a carteira. Implorou ao vendedor que vendesse fiado, que ela iria se casar, estava na igreja e blá, blá, blá, mas o moço estava irredutível. Não iria vender um CD fiado a uma maluca vestida de noiva, sem sapatos, de meia branca colegial e que vira por baixo, umas meias rosa-choque que lembravam o látex de bexigas de aniversário!
Os convidados se mostravam impacientes. A música infernal do Mercadão ainda tocava. Despencou-se para o marido para pedir-lhe o dinheiro para comprar o CD, mas ele insistia que não precisava, que o importante era a cerimônia, que a música era só um simples detalhe. A cada palavra, ela se enfurecia mais. Por que ela resolvera se casar com ele? Já não estavam bem juntos? Os filhos já não estavam crescidos?  Os convidados cochichavam e alguns já ameaçavam levantar e ir embora, e o marido não abria a carteira. Perdendo a paciência ela começou a gritar:
_ Não quero! Não quero me casar com essa música horrorosa! Não quero! 
A música do Mercadão continuava a tocar e ela gritava mais ainda:
_ Não quero! Não quero!
Sentiu uma mão lhe sacudindo, quando o último grito lhe escapou pela garganta. Olhou para o lado e o marido, assustado, indagou:
_ Você estava tendo um pesadelo?

quinta-feira, 17 de março de 2011

Ser mulher

Sou Mulher


           Não desejo mais o que desejava há alguns anos atrás.
          Quero ser reconhecida pelo meu valor, por dividir contigo as responsabilidades do que chamamos de lar.
          Não desejo ser Amélia, desejo fazer contigo e compartilhar as realizações da “mulher de verdade.”
          Desejo o batom mais provocante, a roupa mais ousada, o sexo pelo prazer, mas não desejo ser você.
          Não desejo competição, desejo caminhar lado a lado contigo.
          Não desejo o seu lugar, desejo a igualdade de oportunidades, o respeito, o meu lugar no mundo.
          Não desejo destruir seu mundo, mas construir o mundo com você.
          Por tudo que me dizes, por tudo que me fazes me fazes, desde tempos imemoriais, me desconstruo, mas recobro minhas forças e me reconstruo e cada dia, afinal, sou mulher...
                          Niclécia Gama

                 Foi com esse texto que encerrei a palestra proferida na Câmara de Vereadores de Caldas de Cipó, no dia 15/03/2011 em seção solene em homenagem ao Dia Internacional da Mulher. Estavam presentes várias mulheres que contribuem para o fortalecimento da imagem feminina na sociedade cipoense, além de heroínas anônimas que a cada dia lutam pela manutenção de seus lares e suas famílias nos aspectos econômicos e sociais, além de psicológicos.
               Contamos também com a palestra de Dra. Rute Brasil, que falou das mulheres importantes desde o início do cristianismo até os dias atuais e o nosso papel para a educação da sociedade.
                 A iniciativa foi da atual presidente da Câmara, a vereadora Renata Brito, que se mostrou uma cicerone nata, dada a organização do evento. Foram laureadas com as medalhas "Mulher Brilhante", empresárias como Perpétua Macedo, Odete Souza, sindicalistas, e outras representantes da sociedade cipoense,como Noélia Souza e outras mulheres brilhantes, que nos leva a perceber o empoderamento feminino diante a sociedade dominada pelo sexo masculino.
                 A luta das mulheres pelo direito ao voto, pelo direito à educação formal, por seus direitos à dignidade, à não-violência e a equidade nas relações de trabalho é histórica e somente agora, no século XXI, alguns direitos se consolidam. Ainda temos muitos caminhos a percorrer. Queremos o direito de sermos atendidas com dignidade em áreas como saúde, educação, acesso a serviços sociais e respeito. Sim, a nossa luta por respeito à nossa condição ímpar, já que somos ao mesmo tempo, trabalhadoras, mães, esposas, dentre outras atribuições, nunca poderá deixar de existir. 
                 Muitas de nós ainda são estupradas por seus maridos e companheiros porque acreditam que tem direito ao sexo e ao prazer na hora em que bem entendem. Queremos o direito ao nosso corpo, sem precisar mentir que estamos menstruadas ou com dor de cabeça. Queremos o direito de dizer o que pensamos, sem medo de represálias. Queremos ter o direito de ser atendidas com dignidade  pelos órgãos públicos, em casos como o aborto, a violência,o câncer, a aids e outras causas que nos matam.
                Não queremos ser homens, não queremos ser melhores que eles. Queremos ser iguais em direitos, como reza a Constituição Federal. Iguais, mas diferentes dentro de nosssas especificidades.

Para Pensar:



Nesses dados não está inclusa a violência nossa de cada dia, mas ainda somos  vítimas de abusos sexuais e outros atos violentos, como o preconceito, a discriminação e o racismo.
Abaixo estão os principais tipos de violência que  sofremos a cada dia:

Violência de gênero (principalmente nas relações de trabalho)
Violência intrafamiliar
 Violência doméstica
Violência física
Violência sexual
Violência psicológica 
Violência econômica ou financeira
Violência institucional(mau atendimento em órgãos públicos)
Graças a Lei Maria da Penha, o número de denúncias de agressões aumentou em 112%. Apesar de algumas polêmicas geradas por esta lei, que passará por uma revisão jurídica, nos dá a segurança de que os agressores serão punidos. Defendo o inquérito justo, com coleta de provas, audiências em que se ouça ambas as partes, exames de corpo de delito e defendo o nosso direito de sermos assistidas com dignidade perante a lei.
Uma reflexão:
 

"Eu tenho escutado freqüentemente comentários sarcásticos quanto às mulheres que trabalham em fábricas do tipo - oh, ela é apenas uma operária; o que dá ao mundo a impressão que nós não temos o direito de sonhar com uma outra realidade a não ser a nossa. Eu lamento que ainda não estejamos atentas aos fatos e que percebamos que contribuímos muito para aumentar a riqueza da nação e, que em função disso, temos direito a respeito e não insultos. Pois em muitas casas de Lancashire há heroínas cujos nomes nunca serão conhecidos; ainda assim, é consolador saber que nós, como classe, contribuímos para o mundo".
(Selina Cooper, em artigo intitulado "The Lancashire Factory Girl", 1898)