domingo, 18 de abril de 2010

GRAFITE


Numa tarde fria de inverno, ele olhou para mim. Tentei me esquivar, mas seus olhos  castanhos se prenderam nos meus. Entrei . E de onde estava, ouvi seus soluços na chuva. Não resisti. Perdi-me aos seus olhos e o acolhi em meus braços. Apesar de morar em belo palácio, sua alma era triste. O abracei, e, no meu abraço, seu mundo cruzou o meu.
Na fria noite, o tratei como um  filho, dei-lhe banho, sequei com carinho. O pus para dormir bem quentinho. Na madrugada, seu choro baixinho denunciou a saudade de casa. O acolhi novamente em meus braços, cantei baixinho e o pus para dormir novamente. Dessa vez, em companhia de um ursinho de pelúcia.
Pensei em dar-lhe o nome de Dudu, que em yoruba, significa “negro”, ou Ônix, mas a minha mãe resolveu chamá-lo Grafite, em homenagem ao jogador discriminado, do Santos, e o nome pegou.
Aquela foi a primeira e a última noite de choro. Daí em diante se sentiu seguro e foi essa a minha perdição. Desde então, ele se tornou um pequeno tirano: roeu sapatos novos, roeu pés de cadeira, quebrou os óculos de Joilson, se apossou dos bichinhos de pelúcia de Ana Clara, dentre outras coisas.
Uma vez, Igor estava doente e não tinha se alimentado bem durante a semana. Com carinho, fiz um bolo de maçã e deixei esfriando sobre a mesa. Fui à casa de uma amiga, rapidinho. Quando voltei, ele estava na porta, todo desconfiado. Quando olhei para a mesa, o danado havia comido todo o bolo. Não sei como não morreu de indigestão. Outra vez, não sei como, subiu na mesa e lambeu quase um pote de manteiga e nem teve diarréia. Acreditamos, que quando saímos, ela deve abrir umas asas que deve ter escondidas nos pelos, não asas de anjo, mas de uma entidade duvidosa...
Grafite está conosco há cinco anos, largando pelos pela casa inteira, pois é um Cocker spaniel, detestando Joilson desde sempre, pois quando tem oportunidade faz xixi no travesseiro dele. Ciumento como um amante louco, faz festa quando recebemos visita, mas rosna quando alguém me beija. Mas depois as presenteia com uma meia ou um pano-de-chão. Como todo baiano, adora uma rede. Quando viaja de carro, seu lugar é no banco da frente, para por os orelhões ao vento e ficar engolindo o ar.
É a expressão literal do velho ditado “o cão chupando manga” pois é sua fruta preferida. Quando comemos maçãs ou peras, ela fica pedindo com aquele olhar de coitadinho. Seus olhos são um capítulo a parte, pois com eles, consegue tudo que quer. Não suporta que briguemos com ele, tem umas manias de gente, adora dormir de papo pro ar e até ronca!
Além disso, Grafite tem uma energia infinita para brincar com Ana Clara: até hoje não sei se ele pensa que é menino ou se ela é cachorro. A  brincadeira preferida dos dois é ele entregar, presa entre os dentes, uma meia para ela, que a segura e gira para ele sair tontinho pela casa, se batendo nos móveis.
Ele tem também a mania de me disciplinar quando fico acordada até tarde. Vem de mansinho, me olha com cara de pedinte, com seus olhos castanhos e ar entristecido, começa a chorar e dar pulinhos em direção à rede ou ao quarto. É o sinal que é hora de dormir...

sexta-feira, 16 de abril de 2010

A um amigo...

Pessoas são como estrelas, diz um velho texto que circula na Internet. Umas apenas passam em nossas vidas, outras permanecem brilhando eternamente. Agradeço a Deus por ter meu céu pontilhado de estrelas que são eternas.
Uma delas tem nome: Paulo. Começou a brilhar na minha vida como um pontinho de luz que tremeluzia, lá no final dos anos 80. 1988, para ser precisa. Nos conhecemos quando entrei para o curso técnico, no saudoso Colégio Maria Vestina, que nessa época funcionava no Colégio Edivaldo Boaventura. Bons tempos aqueles... No Maria Vestina, fiz amigos duradouros e quando nos encontramos uma festa se forma em nossas cabeças.
Pois bem, esse pontinho de luz foi se aproximando, tímido, para estudar, fazer trabalhos, trocar informações e, aos poucos, conversávamos sobre tudo. Ele era magrinho, comprido, dono de um sorriso lindo. Eu, baixinha, espoleta, circulava pela turma inteira, por isso meu céu é tão estrelado. Foram tantos amigos...Seria injusta se não lembrasse de Gislaine, Olga, Dimas, Climério, Reinaldo, Boy, Cláudio, Lúcio, Vicente e Marivânia, Ceiça, Wellington,Edna, Tusta, Climério e tantos outros que não cabem aqui, mas cabem em meu coração... Cada um mereceria um texto, pois também são pessoas especiais.
Muitos estão em outras terras, perdemos o contato. Mas inventaram uma ferramenta ótima para amigos distantes: o Orkut e graças a ele reencontrei muitas pessoas. O Paulo, entre elas.
Acompanhei seu noivado, o nascimento de suas filhas. Eu tinha até um passarinho que se chamava Poliana. Conversávamos muito quando ele trabalhava no Grande Hotel, mas quando foi para a Polícia Militar, perdemos o contato e só nos vimos, desde então, em curtíssimos espaços de tempo, sempre de passagem.
Graças à tecnologia nos reaproximamos. Trocamos poemas (ele) e contos (eu). Nos lemos no Orkut, no blog, no e-mail. Não preciso dizer o quando prezo sua amizade, por isso esse texto é para você, Paulo. Para te dizer o quanto me sinto honrada em ser sua amiga (e tem gente que não acredita em amizade entre homens e mulheres) e como me sinto lisonjeada em ser definida em versos por você, me acredita assim:

“Você é simplesmente muito mais que o Estalo de um Grito singular e poeta no infinito.
Você é exatamente o original de uma idéia boa de alma lavada e elevada pra lá do fim do mundo....você é mais que um poço sem fundo.
De sorriso farto, de emoção divinal, de tom angelical...assim assim assim...feito gente natural”.
Às vezes nem me acho essa bola cheia que você pinta tão bem... Mas sou meio assim, assim, assim...

Um beijo em seu grande coração, meu amigo, estrela pulsante em meu firmamento!!!

quarta-feira, 14 de abril de 2010

DIA DE CHUVA

A chuva castiga a cidade. Lá fora, a água parece brotar das bocas-de-lobo, que já não suportam a vazão do aguaceiro. O som da chuva caindo nem de longe lembra o mesmo som da chuva que cai no interior, nas casas de telhado. Aqui dentro, entre leituras, computador, televisão, cada um cuidando de seus interesses pessoais.
Lembro que quando criança (pois pequena eu sempre fui) gostava de ver a chuva caindo, escorrendo pelos beirais do telhado, na casa do Buri. Vez ou outra, conseguia dar uma fugidinha e tomar aquele banho nas grossas goteiras que desaguavam na terra fofa, formando, ao tocar o chão, pequenas coroas. Me sentia a rainha da chuva... Talvez por isso eu goste tanto de ver a chuva caindo.
Admiro a beleza das tempestades, embora estas tragam trágicas conseqüências para uma grande parte da população.
Hoje, depois de observar a chuva, com um ar melancólico, que nem combina muito comigo, resolvi tomar um vinho quente, bebida típica do inverno sulista. Baiano é assim, na primeira chuva, faz a festa! Adoro o inverno por causa da elegância que as pessoas costumam se vestir para ir ao trabalho, ao shopping, ou até para encontros casuais.
A chuva continua a cair, agora mais mansa. Fecho os olhos e sinto, vindo das minhas lembranças, o cheiro da terra molhada. O sabor das memórias agora não mais da infância, mas da adolescência inconseqüente, tempo em que andava por aí, de moto, sentindo os pingos da chuva atingirem como agulhas a minha pele, dos beijos molhados, do amor sem barreiras climáticas.
Retorno ao presente, para o aconchego do meu lar, cada um ainda cuidando de seus interesses e o cachorro, aproveitando o friozinho que chega por uma fresta da janela entreaberta para tirar um cochilo perto de mim, no braço do sofá.
A tartaruga? Perdida por aí. Quem sabe depois da chuva ela aparece?

domingo, 11 de abril de 2010

Desventuras de uma dona-de-casa


Ah! Essa vida de dona-de-casa, realmente é uma loucura... Gilda ainda não voltou e estou tendo que, tecnicamente, dançar o redolation na cozinha... E tem gente que gosta! Do rebolation e das tarefas domésticas!
A pior parte dessa semana foi limpar as carnes que íamos consumir... Tenho horror a carne crua, o cheiro me enoja... E o frango? Pra tirar a pele do bicho, tenho que por uns três limões antes, para não sentir o cheiro, isso sem  contar as ânsias de vômito que aparecem qunado, por baixo da pele fria, aparece auqela gosma. Ugh!!!

Não gosto muito de trabalhar com objetos perfuro-cortantes. Não gosto de facas, tesouras ou agulhas. Minha mãe tentou muitas vezes me ensinar a fazer bainhas de calça, pois, segundo ela, me casaria e teria que apender a fazer as bainhas das calças do marido. Grande coisa... na minha cabeça adolescente, não me casaria. Daí, um dia, me casei, mas até hoje, não fiz uma bainha sequer das calças dele, em dezesseis anos de casamento. Se for necessário, faço um armengue, preferencialmente, com fita adesiva dupla face, para não furar os meus dedos com as terríveis agulhas.
Pois bem, estava a cuidar das carnes, quando, de repente, não mais que de repente, a faca escorregou e cortou-me o dedo. Foi um sangria total. No auge do meu desespero o telefone toca e é uma amiga a me perguntar como eu estava, ao que respondi:
_ Tentando me suicidar, a começar pelos dedos! Imaginem só, realizem, alguém tentaria se matar logo com uma faca... Ainda bem que ela bem-humorada e me respondeu:
_Só você mesmo, sua boba! Existem métodos mais eficientes para se matar! tente se afogar num copo d´água!
Isso acabou definitivamente com o meu mau-humor, caímos na risada e acabei deixando as carnes para Joilson cuidar. Ainda bem que tenho um marido pós-moderno.
A família inteira tem se empenhado para manter a casa funcionando. De certa forma, isso nos une mais, embora seja irritante ficar pedindo a Igor para fazer uma tarefa pelo menos umas quinhentas vezes, mas ele está se saindo muito bem.
O trabalho de Ana Clara é limpar o rack, pois como todos estão ocupados, ela também se sente responsável por alguma coisa. E assim vamos vivendo, e eu, morrendo de saudade de Gilda...

terça-feira, 6 de abril de 2010

Diário de uma atípica dona-de-casa II

Sempre gostei de andar com as unhas arrumadinhas, mesmo que na primeira instabilidade, eu as roa. Porém, com as minhas "bem-aventuranças" como dona-de-casa, consegui, em tres dias, acabar com os esmalte que coloquei, chiquérrimo, roxo-beringela. Depois de lavar roupas, mesmo com ajuda da máquina, de cozinhar, temperar, limpar, fiquei rosa-chiclete quando vi os pedaços de esmalte largando. Quase enfartei!
Estou passando uns dias de cão. Durante os turnos de trabalho, em cima do salto e no turno de casa, uma verdadeira gata-borralheira. Ugh!
Até gosto de cozinhar, umas comidinhas diferentes, testar temperos, texturas, sabores, mas fazer o feijão-com-arroz do dia-a-dia, é um pouco demais!
Para mim, a gota d'água é lavar cuecas. Nunca lavei, nem lavarei... Não faço isso nem com a corda no pescoço, a menos que o dono delas esteja doente ou com uma das mãos quebrada. Não faço questão de ser esposa padrão. Já disse e repito: adoro ser uma trabalhadora brasileira. Adoro a minha família, a minha casa, os meus filhos, mas tem coisas que eles não podem e não devem esperar de mim.
Tenho me virado do jeito que posso  e ainda acho um tempinho para escrever meus "Poemas comestíveis", alimentar o blog e ler um pouquinho.
 E quer saber? Novamente benditas sejam as mães, as nossas empregadas, as nossas diaristas e qualquer heroína que se desdobra para trabalhar e ainda cuidar da vida doméstica. Só espero que a minha situação se resolva logo... estou quase tendo uma síncope! Meu Deus, não tenho vocação para ser Amélia... "Amélia não tinha a menor vaidade, Amélia é que era mulher de verdade."

Beijocas, cansadas...

domingo, 4 de abril de 2010

Se não vai ter festa, invente uma!

Quando a gente cresce, a vida de adulto acaba encolhendo a porção criança que existe em nós, e ficamos preocupados com a educação dos filhos, as contas para pagar, com o mês que tem mais dias do que o salário, essas coisas de adultos. Mas, quem ainda tem criança em casa, como eu, não pode deixar de organizar uns "eventos".
Boa era a vida no interior, que tinha a imensidão da rua para jogar rouba-bandeira, baleô, brincar de esconde-esconde, amarelinha, pega-pega. Para quem mora na cidade grande, mais especificamente em apartamentos, o espaço para a brincadeira se restringe ao playground.
Pensando nisso e com pena de Giovanna, amiga de Ana Clara, que não pode vir para o aniversário, prometi que faria um batizado de bonecas no final do mês. Com a proximidade da Semana Santa, agendei o tal batizado para o Sábado de Aleluia.
Foi uma festa, fiz bolo, pão, brigadeiro, jujuba, biscoito, tudo servido num conjuntinho de chá charmosíssimo até a neta da vizinha, que é evangélica, estava aqui em casa batizando bonecas. Joilson bancou o padre, com direito a pia batismal e Igor e Danilo, namorado da minha irmã, foram padrinhos.
Foi uma farra. Até os adultos se divertiram. Tenho certeza que quando estiverem adultas, as meninas lembrarão com carinho da tarde de ontem. O próximo batizado está marcado: vai ser no apartamento novo de Fernanda. Portanto, se não tiver um motivo para festejar, invente um! Você vai se surpreender...

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Páscoa em Família

Adoro as festas de família. É a oportunidade que temos de nos reunirmos, conversarmos, trocar figurinhas... Diante das mazelas que estou vivendo, até que dei conta da comida dessa sexta-feira santa: caruru, vatapá, moqueca de bacalhau, de camarão, de arraia, bacalhau de forno, feijão fradinho e.. de sobremesa... pudim! Uiii!!! Mas de acompanhamento, para os adultos, O VINHO!!!  Meu cunhado sabe que adoro vinho seco e me trouxe um, argentino, que foi meu fim...
Desde  a minha formatura, em 2005, não tomava um porre tão violento. Nooossssa!!!! O vinho tinha um gosto de quero mais e comecei pelo argentino, continuei com um chileno e acabei num gaúcho... O resultado disso tudo foi que me senti levinha, sem dor (que foi a melhor parte). Mas a rebordosa foi o fim: Vomitei horrores na pia do banheiro. Ughj!!!! Tomei um banho frio, falei besteira, depois apaguei. Quando acordei, descobri que minha sogra estava em casa (que catástrofe!!!) e que eu não a recebi porque estava apagada....
Acho que realmente falei horrores, pois meu marido estava com uma cara!!!! Será que contei algum segredo inconfessável????  Quase todos nós temos uns momentos desses...
Tomei um café forte, quente e meio amargo. Só não estou pronta pra outra, pois vexame assim só de vez em quando... Aliás, uma vez a cada cinco anos, pra não fazer feio. Não consigo entender qual o prazer de ficar  de porre... Mas cá, entre nós, de vez em quando, não faz mal a ninguém.

Beijocas

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Diário de uma atípica dona-de-casa

Passei esses dois dias bendizendo as donas-de-casa e as empregadas domésticas. E mais: bendita a minha mãe e a sua, que muitas vezes abdicou de seus desejos pessoais para cuidar da casa, dos filhos e do marido.
Quer saber o motivo de tanta adoração? Minha fiel escudeira, Gilda, que trabalha comigo há quinhentos anos está doente e deve ficar uns quinze dias afastada mais uma vez. Por sorte (se isso é sorte) minha irmã Nívea, que mora comigo, está desempregada. Parece hipocrisia, mas nunca agradeci tanto a Deus por alguém ficar sem emprego. E não é maldade.
Estamos nos rebolando para dar conta de todos os afazeres domésticos, além de cuidar de levar e apanhar Ana Clara na escola, fazer comida, lavar roupa... Definitivamente não fui talhada para ser dona-de-casa. Ufa!!! Para completar o “muro das lamentações”, ontem nós passamos a manhã lavando as roupas (de cama, mesa e banho) e a pobrezinha da Nívea as colocou para secar na cobertura do prédio. No finalzinho da tarde, fui lá recolhê-las.
Toda prosa, retirei-as do varal, dobrei-as, admirei o céu que escurecia e desci as escadas, com cuidado, andar por andar, mas, quase no finalzinho da escada do segundo andar, achei que os degraus haviam terminado e dei “aquele passo”, rolando escada abaixo uns cinco degraus. Gemi, chamei os vizinhos, mas não estavam em casa. Fiquei uns cinco minutos tentando arranjar um jeito de levantar para não machucar ainda mais a coluna, até que consegui e cheguei em casa, arrasada, com um machucado horrível na perna.
Hoje, com o sangue frio, estou mais dolorida. Ainda assim, tenho que dar conta de algumas tarefas domésticas pois amanhã é Sexta-feira Santa e a casa vai estar cheia.
Porque estou contando isso? Para desabafar e para dizer que realmente essa não é a minha missão. Adoro a minha casa, a minha família, mas gosto de trabalhar fora o dia todo e chegar à noitinha e encontrar um cafezinho preto e quente, a casa arrumada, os filhos cheirosinhos... Trabalho fora desde os 14 anos e jamais me adaptaria á rotina de ficar o dia inteiro em casa, cuidando de tudo. Definitivamente, essa não sou EU!!!!
Portanto, reitero aqui minha admiração pelas nossas mães, pelas “rainhas do lar” e pelas nossas secretárias!!!