Já não tenho vinte anos. Observar a passagem do tempo em nosso corpo não é lá um momento muito fácil. Os cabelos brancos teimam em nascer e chega um momento que não dá mais para arrancá-los de pinça e recorremos à tintura. Como dizem, mulheres não envelhecem, ficam louras. Acho que estou chegando nessa fase.
Embora tenha uma aparência jovial, algumas rugas começam a se formar nos meus olhos e quando não durmo bem, diferentemente do vigor dos vinte anos, olheiras enormes e escuras se formam e desperto mais parecendo um urso-panda, com suas olheiras negras. Apesar disso tudo, amadurecer tem suas vantagens. Aos vinte, era completamente irresponsável. Só queria namorar, ir a festas, aliás, não perdia um batizado de boneca!
Aos trinta, em geral, nós mulheres ficamos mais calmas, nossas decisões são pensadas, na maioria das vezes, nessa idade, já temos marido e filhos e um mundo de responsabilidades. Analisando minha trajetória de vida, acredito que não faria nada diferente. Tive uma adolescência tumultuada, como é típico da idade, amores breves, amores longos. Amei, fui amada. Odiei, fui odiada. Fiquei deprimida, me rasguei por dentro, me reconstruí... e esse processo foi fruto do meu caminhar. Como numa grande prateleira, guardei essas experiências, cada uma numa caixa, em um lugar especial. Não podemos esquecer o passado pois ele constitui nossa história, mas devemos viver o presente e planejar o futuro. Minhas caixas estão lá, guardadas... às vezes abro alguma, remexo, reviro, mas ela fica lá, como diz a música, cada uma no seu quadrado.
Hoje, aos trinta e sete, estou madura, embora às vezes tenha umas crises adolescentes. Tenho uma linda família, amores verdadeiros, sólidos, construídos na base da lealdade, do companherismo e por que não, da amizade? Casaria outra vez, com o mesmo marido, é claro! Penso que ele compreende bem minha individualidade e respeita meu espaço... Costumo dizer que quando casamos, recebemos uma caixa numa embalagem bem bonita, com um laço de fita dourado. Na lua-de-mel, esquecemos a caixa, e ela fica lá... Um dia nos lembramos dela, e começamos a abrir. A grande surpresa é que nessa caixa não estão apenas coisas boas: recebemos nela os problemas que podem surgir, a família e a história da pessoa com quem casamos e outras coisas. O grande desafio é administrar tudo que está na caixa.
Minha caixa ainda tem muita coisa lá dentro. Coisas boas, coisas não tão boas assim... prefiro não me antecipar e tirar cada uma de lá a seu tempo. Aliás, o tempo é muito cruel com as mulheres, sua passagem fica marcada no nosso corpo, irremediavelmente... A força da gravidade começa a agir e lá se vão nossos seios, nossa bunda e outras coisinhas mais. Nos homens a força da gravidade é menos percebida, o que cai fica escondido!
Não estou depressiva por completar trinta e sete anos. Hoje sou uma pessoa melhor do que eu era há uns vinte anos atrás. Estou bem resolvida profissionalmente, sentimentalmente, sexualmente, obrigada! “Realmente, não tenho mais vinte e poucos anos e, como diz Vander Lee,” Não tenho vinte e poucos anos, mas trago um cara muito novo em mim. “Sou feito de perdas e danos, me contradigo, me surpreendo no fim.”
Beijo no coração!