Inimigo secreto
Aproximava-se o Natal. As pessoas estavam agitadas, preocupadas com os presentes que iriam ou não ganhar, com a ceia e, quem sabe, preocupadas mesmo com seus próprios umbigos. Estava fazendo um curso de especialização numa renomada Universidade. As pessoas que ali estavam tinham um poder econômico razoável, já que aquele era um dos cursos mais caros da área.
Contagiadas pelo clima natalino, as colegas sugeriram a organização de um amigo-secreto. Algumas sugeriam que nos déssemos livros que constassem da bibliografia do curso, outras que fosse estabelecido um preço mínimo para o presente, para não haver discrepância entre valores, já que é muito comum uma pessoa ganhar uma blusa fantástica que custa os olhos da cara ou aquele perfume da moda e receber em troca um mimo de uma loja de um e noventa e nove.
Não vamos ser hipócritas e dizer que o que vale é o simbolismo, na verdade, como humanos que somos, nos sentimos ofendidos sim quando achamos que o presente não está à altura. Abaixo a hipocrisia!
Estabelecemos então que seria passada uma lista de sugestões. Lembro-me de ter sugerido um livro de Alícia Fernandes. Mas, logo de início, a ideia do tal amigo-secreto minguou. De cinqüenta alunas, apenas umas quinze toparam. Trocaríamos presentes e almoçaríamos fora da Universidade. Começava outra longa deliberação para a escolha do lugar. Umas sugeriam um restaurante na orla marítima, outras achavam caro e sugeriam um restaurante de shopping e acabou que iríamos almoçar num boteco próximo, mas que, segundo algumas, tinha um um bom tempero.
Assim, a lista de sugestões foi passada, os nomes sorteados, os preparativos iniciados. Era época de encerramento de disciplina e de entrega de relatórios de estágio. Com os compromissos entre família, trabalho e universidade, no fatídico dia, ninguém lembrou do evento. Apenas eu, o professor e outra colega, trouxemos o presente.
Propus então que trocássemos o presente entre nós, somente para não voltarmos para casa com o presente que compramos para alguém. O bendito professor não concordou, pois havia comprado um livro que só teria significado se desse a tal amiga que havia sorteado, pois estava empolgado, arrastando asas para ela durante todo o curso.
Eu havia comprado um livro interessante para minha amiga-secreta e um igualzinho para mim. A colega, que por acaso era a pessoa a quem eu deveria entregar o presente, trazia embalada num papel dourado uma caixa , que parecia de perfume. Já decepcionada, não queria levar de volta o livro que comprara para ela, que, por ironia do destino, havia sido sorteada por duas vezes, diante das desistências do grupo e, por outra fatalidade infeliz, eu seira sua amiga-secreta.
O professor levou seu livro de volta. Nós duas trocamos os pacotes. Ela abriu meu pacote, ao tempo que, curiosa, eu abria a caixa. Para minha surpresa, deparei-me com um papai-noel de gesso, daqueles são vendidos nas lojas de um e noventa e nove e que custa no máximo uns cinco reais. A decepção se estampou na minha cara. Acho até que empalideci. Como é que uma pessoa como ela, mulher de um prefeito do interior, diante de um valor acordado, tinha a coragem de dar um presente daqueles? Parecia até que já tinha sido usado no natal anterior, dada a quantidade de poeira.
Minhas amigas que estavam na mesma turma, também compartilharam a minha decepção. Na ida para casa, morrendo de raiva do tal papai-noel, contei para o meu marido e meu filho, espumando de raiva e os dois caíram na gargalhada, o que me deu mais raiva ainda.
Furiosa, pedi para que parasse o carro no primeiro sinal que daria aquela coisa horrenda ao primeiro que passasse, pois se eu levasse aquele objeto para casa, a cada vez que o olhasse, lembraria da decepção. Mas ele não parou...
Talvez alguém se sentisse feliz em ganhar um enfeite de natal, por isso, ao ver um vendedor de gás pedi novamente para que meu marido parasse e ele novamente não parou...
Irritada pelas gargalhadas e tomada de fúria, abri a janela do carro e, próximo a um ponto de ônibus, a uma distância segura para não machucar ninguém, arremessei o maldito papai-noel, gritando:
_ Vai, papai-noel dos infernos!
Daí em diante, parti convicta de nunca mais participar de um amigo-secreto.
Niclécia, dezembro de 2007
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